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vgBR | 16 de julho de 2019

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Análise – South Park: The Stick of Truth

Análise – South Park: The Stick of Truth
André Sepu
  • Em 4 de março de 2014
  • https://www.vgbr.com

Review

GRÁFICOS
9
9

Politicamente incorreto divertidíssimo

South Park the Stick of Truth é um ótimo jogo licenciado, algo em extinção e que por isso deve ser valorizado. Se você é fã de RPGs ou da série, compre South Park. A diversão é garantida.

Já há algum tempo, e de uma maneira cada vez maior, o humor vem sofrendo uma pressão do movimento politicamente correto que vem tomando conta e se espalhando pelas redes sociais como uma praga. Hoje é praticamente impossível escrever ou comentar sobre qualquer assunto sem que algum grupo se sinta ofendido de algum modo. Apesar dessa pressão, alguns programas de televisão ainda sobrevivem mantendo a não tão adorada fórmula do humor negro e politicamente incorreto.

Frequentemente citados como exemplo de um país conservador, curiosamente é dos Estados Unidos que vem a maioria das animações politicamente incorretas que fazem sucesso no Brasil. South Park se diferencia um pouco dos outros do estilo como Os Simpsons, The Boondocks e Family Guy, apostando na mistura de inocência infantil com comportamentos e temas totalmente inaceitáveis em qualquer sociedade.

Aliás, pra quem não conhece a fundo o desenho é bom avisar de antemão: se Jesus matando pessoas com uma metralhadora ou crianças presenciando cenas de sexo está além do que você considera de aceitável no humor, então South Park não é pra você.

Na verdade, esses são exemplos leves. Um dos protagonistas da série, por exemplo, morre em todos os episódios da forma mais bizarra possível e, segundo seus criadores, isso acontece simplesmente porque ele é pobre.

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Possuindo uma legião de fãs, a série ja recebeu alguns jogos no passado, mas South Park: The Stick of Truth talvez seja o primeiro de orçamento e capricho dignos da série. Para o desenvolvimento do jogo publicado pela Ubisoft, a empresa escolhida foi a Obsidian, uma desenvolvedora americana de RPGs que possui títulos de peso em seu currículo, como Fallou:New Vegas e KOTOR2, ambos conhecidos por sua qualidade e também pelos seus bugs. Entraremos mais tarde nos detalhes dos bugs e qualidades do jogo, mas é importante dizer que em South Park a Obsidian resolveu assumir um grande risco. Os combates usam a mecânica de turnos, com tela de transição para batalhas e tudo mais que caracteriza o gênero, e essa é uma fórmula que já não tem a mesma aceitação de antes pelos jogadores ocidentais.

Se a mecânica do jogo, juntamente com o seu conteúdo adulto, pode acabar transformando South Park em um jogo não tão acessível quanto poderia ser, ela também tem o poder de transformar South Park em um jogo relevante. Diferentemente da imensa maioria de jogos licenciados , South Park é um jogo de alta qualidade e completo em todos os detalhes. Colocando de maneira simples, se South Park The Stick of Truth fosse um filme da série, ele seria muito bom e se fosse um RPG sem nenhuma referência a South Park, também.

Se você é, mesmo que remotamente, interessado em RPGs ou na série, a minha recomendação independente de notas ou análises mais profundas é: compre South Park. Você vai se divertir de uma maneira ou de outra. Eu garanto.

Dito isso, vamos aos detalhes.

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HISTÓRIA

Em South Park você joga como um garoto que acabou de se mudar para a cidade. Seu personagem é caladão e não se lembra de alguns acontecimentos do passado que escondem um fato muito importante sobre ele. Ao sair na rua para fazer novas amizades você logo percebe que todas os garotos da cidade estão jogando uma enorme partida de RPG. O mundo está dividido entre humanos e elfos. Cartman é o líder dos humanos e seu quintal o seu reino. As raças vivem em constante luta pelo cajado da verdade (the stick of truth). Quem controla o cajado, controla o universo.

Com o passar do tempo novos acontecimentos paralelos vão se incorporando à história do jogo, e de um modo cada vez mais forte o nonsense começa a tomar conta, o que pros padrões da série é um lado positivo. Existem diversas referências a outros jogos, personagens ou mídias da vida real como Skyrim, Pokémon, Call of Duty, animes e políticos norte americanos.

South Park The Stick of Truth (16)

A cidade de South Park é totalmente explorável, mas como na série, ela é pequena. Para resolver essa limitação do jogo, os roteiristas e a Obsidian tiveram ideias interessantes. De tempos em tempos durante o jogo o dia acaba e as crianças precisam parar de brincar e voltar às suas casas para dormirem. Nesse momento você deixa de incorporar o seu personagem, e se transporta para cenários e situações totalmente diferentes das vistas até então, e que explicam um pouco do que está acontecendo na cidade em paralelo com a brincadeira dos garotos.

Todos os itens, menus, legendas e até letreiros e mensagens in-game estão em português. Embora existam alguns erros de tradução em alguns momentos, de um modo geral ela é muito boa. A tradução ajuda na imersão e propicia a todos que não conhecem bem inglês a possibilidade de aproveitar a história e todos os detalhes e piadas bizarras que aparecem durante todo o jogo.

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SOM

A dublagem do jogo conta com todos os dubladores originais da série e por isso é simplesmente perfeita.

A trilha sonora é agradável e tenta sempre te colocar no clima do RPG que está acontecendo na cidade, com muitas músicas que lembram Skyrim ou algum filme medieval qualquer. A semelhança obviamente é proposital mas, apesar disso, ou talvez por causa disso, ela acaba sendo bastante genérica.

Um dos feitos da série South Park é conseguir transformar aquele números musicais que em filmes ou desenhos da Disney são completamente irritantes e desnecessários em algo divertido. Infelizmente não há nenhum número destes no jogo e, quando lembramos dos clássicos como “Kyle mom is a big fat bitch”, “It’s Easy Mmmkay” ou das canções de letras eróticas do Chef, não há como não lamentar essa ausência.

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GRÁFICOS

Sobre os gráficos não há muito o que falar. É praticamente um episódio do desenho jogável e por esse lado ele é perfeito. O jogo ainda conta com uma homenagem aos fãs dos jogos clássicos que não temos como entrar em detalhes sem spoilers, mas que com certeza vai divertir a todos e trazer um pouco de variedade visual.

O ponto negativo fica para algumas questões técnicas. Apesar de gráficos extremamente simples o jogo não apresenta um aspecto muito fluído, o que não estraga a experiência mas deixa a sensação de que poderia ser melhor. Também ocorreram alguns problemas de screen tearing durante o jogo. Habilitar o v-sync resolveu o screen tearing , mas a alteração teve que ser feita diretamente no painel de controle da placa de vídeo, já que o jogo não oferece a configuração nos seus menus, como a maioria dos jogos de PC oferecem.

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JOGABILIDADE

Como dito, o jogo segue a linha de um RPG tradicional mas conta como algumas adições muito bem vindas.

Pra começar, a exploração é livre e recompensada com itens. Quase toda casa ou prédio pode ser visitado e todo corpo de inimigo derrotado pode ser pilhado, mas diferentemente dos RPGs mais complexos, em South Park o inventário é ilimitado e facilitado. Armas, roupas, melhorias e itens de missão estão separados de todo o resto que é considerado lixo. Nenhuma arma ou roupa precisa ser montada ou forjada, e o lixo é uma infinidade de coisas inúteis que você pode vender sem medo. É praticamente dinheiro, mas com o adicional de contar com uma descrição do item que garante algumas risadas. Coisas bizarras como camisinha furada, manual do escoteiro judeu, cartão de maconha medicinal são alguns dos exemplos de lixo. Esses pontos podem tirar um pouco da complexidade, mas com certeza ajudam a aumentar o tempo útil de jogo, tirando toda aquela burocracia que já conhecemos do gênero.

Além do inventário, os menus do jogo contam com mais uma porção de informações como: mapa, sua página pessoal do Facebook, missões, coleções etc. A principio a quantidade de menus e submenus assusta, mas com algum tempo de uso elas se tornam mais simples de entender. Além disso as opções mais usadas podem ser chamadas diretamente por atalhos no direcional digital.

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Nas batalhas você sempre controla o seu personagem e um amigo, que pode ser trocado a qualquer momento. A cada turno você pode realizar uma ação de melhoria e uma de ataque. As ações de melhorias envolvem consumir um item, evocar um personagem especial ou usar uma habilidade especial. As ações de ataque envolvem ataque direto, ataque de longa distância, habilidades de combate (que consomem PP e possuem algumas das animações mais divertidas) ou magias (que consomem mana). Além de serem selecionados, todos os ataques, assim como as defesas, dependem de uma ação direta do jogador no momento certo para maior efetividade. O sistema neste ponto lembra bastante os jogos da série Mario RPG.

Os personagens também podem entrar em status positivos (ataque e defesa aumentados por exemplo) e status negativos (sangramento, nojo, fogo, etc), que não só tiram energia a cada turno, como afetam seu ataque e os itens que você pode usar. Um personagem com nojo por exemplo, além de vomitar a cada turno perdendo energia e de perder defesa,  não pode comer para recuperar energia. Os inimigos também podem assumir posições diferentes durante o jogo que te obrigam a ajustar a estratégia. Um inimigo em posição de contra-ataque nunca pode ser atacado diretamente enquanto um inimigo em posição de reflexão não pode ser atacado a longa distância.

Como dito, se trata de um sistema completo, complexo e divertido e, por mais que não pareça no papel, é um sistema bastante acessível. Jogadores experientes de RPG se sentirão em casa e novatos não terão muitas dificuldades para entender as nuances.

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O sistema de batalhas é a cereja do bolo, mas muitos inimigos podem ser derrotados sem que seja necessário entrar em combates. Existem algumas habilidades que podem ser usadas fora de batalha que, em conjunto com a interatividade do cenário, são usadas para resolver quebra-cabeças e derrotar alguns inimigos de forma mais simples. Apesar de estes movimentos serem fáceis de usar, alguns dos mini games criados para tutorial são desnecessariamente difíceis e um pouco chatos.

Se a Obsidian fez o esperado ao entregar um RPG de qualidade, ela infelizmente também fez jus à fama ao entregar o jogo com alguns bugs. Há um mercador no jogo que vende 3 itens de roupa que bugam o jogo. Não é preciso nem comprar as roupas. Basta passar o cursor por cima de qualquer uma delas para que o jogo feche e a tela de erro do Windows apareça. Isso aconteceu comigo 100% das vezes que tentei, e eu tentei mais de 10 vezes. Também há um problema no reconhecimento dos comandos quando saindo de uma tela de transição ou menu. Um exemplo: Ao coletar os itens de uma gaveta, uma janela vai se abrir para que vc veja os itens e escolha qual coletar. Se ao sair dessa janela vc ja estiver com o direcional para o lado que deseja andar em seguida, o jogo geralmente não reconhece essa entrada e seu personagem não se move… Você então tem que largar o analogico e colocar para o lado novamente para começar a andar. Parece uma coisa pequena, mas acontece com grande frequência e começa a incomodar após um tempo. Lembrando que todos os problemas foram verificados na versão de PC.

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Eu sou um grande crítico de jogos lançados com bugs, mas eu tenho que ser justo e dizer que fiz praticamente 100% do jogo e esses foram os únicos problemas que encontrei. São problemas simples de serem resolvidos e que não impediram o meu avanço no jogo de modo nenhum. Reforço essa ideia porque não quero deixar uma última impressão de que South Park é um jogo quebrado, porque ele não é. É um jogo que recebeu um enorme capricho e com uma complexidade grande, principalmente por se tratar de um título licenciado.

O jogo é relativamente curto para um RPG. Eu levei cerca de 15 horas pra terminar na dificuldade normal completando quase todas as sidequests. Apesar disso, a sensação que ficou no final foi de que, mesmo querendo continuar o jogo por mais tempo, a duração foi justa e satisfatória, já que o jogo em nenhum momento forçou a repetição de tarefas e viagens massantes e desnecessárias só pra aumentar sua longevidade.

CONCLUSÃO

South Park pode acabar sendo um jogo de nicho, ou pode acabar trazendo aos jogadores que abandonaram o gênero, novamente o prazer e o interesse de jogar um RPG por turno. Por enquanto ainda não temos estas respostas, mas já podemos afirmar que South Park the Stick of Truth entra na mesma galeria de jogos como Batman Arkham Asylum, como um dos poucos nas gerações recentes que serão lembrados como ótimos jogos licenciados. É um tipo de jogo em extinção e que por isso deve ser valorizado.

André Sepu

André Sepu

Cervejeiro, fã de AC/DC, QOTSA, Sublime e corintiano de coração.