Análises

Análise – Mafia III

História fantástica, mas apresentação não acompanha
Mafia III poderia ser um novo clássico, mas graças aos inúmeros problemas fica no quase. A história faz jus à época retratada mas os gráficos inconstantes, bugs, e a repetição acabam diminuindo a experiência do game.

Em meio a uma série de críticas a que Mafia III está sendo exposto após um lançamento desastrado, pelo menos uma coisa é inegável: a coragem da série em se renovar.

A primeira incursão de Mafia nos games foi nos anos 30, quando um taxista de uma fictícia Chicago se vê obrigado a entrar para o crime e depois não conseguir mais sair. O dinheiro mexe com as pessoas e leva-os além do limite. Quinze anos depois, Vito Scaletta volta da Segunda Guerra e não consegue se ambientar à rotina e à falta de perspectiva de uma vida comum em uma fictícia Nova York e também se rende à Mafia. A história mais uma vez se repete alguns anos depois, em uma outra situação.

História

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A New Bordeaux do final dos anos 60 não é lugar para um preto. Ou não deveria ser.

Lincoln Clay retorna da Guerra do Vietnã para sua terra e reencontra os amigos, mas descobre que todos já estão envolvidos até o pescoço com a Mafia, o que o coloca como um potencial alvo. Depois de um trabalho bem realizado que resulta em uma chacina, Lincoln consegue sobreviver e parte atrás dos responsáveis no melhor estilo Kill Bill – bala na cabeça, sobrevida, vingança -, disposto também a tomar conta do mercado negro daquela região. Para isso, contará com alguns aliados de índoles duvidosas. Um deles muito conhecido pelos fãs da série Mafia.

O que poderia ser apenas mais uma história entre tantas outras do mercado sobre vingança mostra-se uma eficiente recriação de época, sem se esconder dos problemas sociais como racismo, pobreza e falta de oportunidades. Ninguém ali está limpo; não há herói, apenas acompanhamos o lado da história de um homem que quer sobreviver e se vingar, sem entrarmos no mérito se o que ele faz é certo ou errado. O martelo da justiça não nos pertence e nem o jogo tende a desequilibrar a balança para algum lado.

Saem os ternos finos e as metralhadoras de tambor para entrarem os primeiros carros esportivos, as camisas floridas e costeletas; é como se O Poderoso Chefão, de Coppola, passasse o bastão a Scarface, de Brian de Palma, sem perder a classe e a essência. Somando a essa fantástica ambientação temos uma narrativa ousada e inovadora para o estilo, que não se prende a uma linha temporal e conta a história de forma episódica, com um julgamento paralelo acontecido anos depois, que traz um ar fresco e mantém o interesse do público naqueles eventos.

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Os traumas de guerra mais uma vez são desenvolvidos, mas de maneira original, com Lincoln usando o que viu na Guerra para se adaptar mais fácil àquele hostil ambiente, que um inteligente personagem diz, em certo momento do jogo, também ser uma guerra. Subtemas importantes como imigração como ferramenta de fuga da miséria (Haitianos) são explorados, compondo um leque maior de personalidades abaladas por causa de uma história conturbada e desfavorável que só cresce até o final. No grupo, além do ex-militar deixado de lado e agora sozinho, temos uma mulher – também negra – respeitada e poderosa, um homem manco e bêbado, um padre tentando encontrar a sensatez em um mundo não crente e um mafioso conhecido jurado de morte por ter sido exilado para o lugar errado na época errada. É quase um Clube dos Cinco, de John Hughes, da Mafia.

Para quem se perder entre tantas traições, nomes e missões, há um diário muito eficiente que relata tudo o que aconteceu no jogo e todas as histórias de todos os personagens – heróis e vilões -, o que acrescenta muito ao seu background.

Um bom enredo, relevante dentro de sua proposta, narrada de maneira criativa e pouco convencional, com personagens únicos, ambíguos e carismáticos (além de perigosos), em uma época muito bem representada e diversificada. Mafia dá uma boa aula nesse quesito.

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Gameplay

Mafia III segue o mesmo estilo de missões de seu predecessor, mas abusa um pouco da falta de variedade: elas seguem um esquema de eliminar alvo X, destruir mercado Y e dominar território Z, e isso se repete ao longo de todo o gameplay até o final. Não varia muito, não vai muito além e nem explora as novas possibilidades que uma nova era tecnológica poderia possibilitar. Lá pelas 20 horas de jogo – o game é enorme – já estamos um pouco fadigados, porém mantemos o interesse pela boa história e a vontade de saber como aquilo tudo termina.

O mundo aberto também é meio ilusório: há pouca coisa acontecendo paralelamente e não há muita opção do que se fazer se quisermos esquecer um pouco o canon das missões; não confunda isso com a falta de linearidade do game, já que agora podemos escolher quais missões fazer, em qual ordem e para qual aliado, o que ficou bem legal. Estamos aqui falando da falta de opções do universo em que Mafia III é ambientado, da falta de exploração de suas possibilidades. Há apenas uma ou outra missão, a maioria secundária, com uma lancha, por exemplo. Motos foram ignoradas e até mesmo opções bacanas que tinham no jogo anterior foram também esquecidas por um gameplay que acabou ficando mais pobre e repetitivo, algo que GTA V, para nos referenciarmos a um exemplo, não sofre.

 

Mas para quem persistir encontrará um jogo extremamente divertido, violento e longo. Para os que gostam de troféus / conquistas, um desafio justo também, uma vez que não limita como a pessoa deve jogar: não há nenhuma por dificuldade e há ainda uma calibragem de mira no começo que permite o jogador nivelar ou desligar auxílios para as passagens de tiroteio. O jogo é para todos, principalmente para aqueles que gostam de explorar tudo o que um game tem a oferecer.

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Há muitos colecionáveis, como as já tradicionais playboys, os cartazes de socialismo que devem ser destruídos (no lugar dos Wanted do anterior), discos famosos da época e uma série de outros itens que também ficaram mais fáceis de serem encontrados, graças ao novo sistema de grampear as linhas telefônicas da região para que elas mostrem os segredos dela. É um sistema divertido e mais justo também, que não dependerá de guias para ser finalizado 100%.

O sistema de aliados é bacana e abre um leque de missões gigantesco para serem realizadas, onde cada uma aumenta a lealdade de seu companheiro e também os lucros que são recebidos em sua determinada área de atuação. É um jogo que tem uma economia própria, com alguns auxílios como capangas que podem ser convocados, um repositor de armas que aparece numa van vermelha louca para te ajudar quando chamado, uma courier bancária que salva o seu dinheiro em carteira e o coloca em um cofre (você sempre perde metade da grana da carteira quando morre, o que pode ser um tormento), um cara que traz carros quando não se está afim de roubar um e por aí vai. Tudo isso ajuda a desburocratizar a experiência. É um jogo muito rico de possibilidades nesse sentido, principalmente porque cada missão feita a um aliado aprofunda ainda mais o seu background.

Outra coisa legal são as diversas possibilidades de se completar uma missão. Em determinado momento, precisava matar um informante, mas ele estava cercado de capangas. Já havia morrido duas vezes naquele ponto e precisava pensar em alguma coisa diferente. Encontrei uma escada no prédio ao lado e, ao chegar no terraço, descobri um sniper lá. Alvejei a cabeça do cidadão e saí sem ninguém ver de onde havia vindo o tiro. Isso é outra coisa bacana: os inimigos não são videntes para todos saberem onde você está quando são realizadas ações isoladas, como na maioria dos jogos. Por vezes eles acabam tendo sua linha de visão ridicularmente curta, mas no geral essa programação de ação e reação funciona muito bem. Por não haver inimigos videntes, o stealth também funciona legal e não depende de matinhos milagrosos para ser útil.

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O grande Calcanhar de Aquiles que Mafia tem exposto em sua curta vida são os bugs, incansavelmente exibidos em uma internet cruel e impiedosa com jogos e mais jogos colocados no mercado não terminados – e Mafia III é um deles.

Há uma série de problemas que vão desde física desastrada a congelamentos em determinados pontos, passando por explosões de pixels, dessincronização da imagem, tremidas e mais tremidas e slowdowns constantes durante o gameplay, além de bugs gráficos como descolorização, carros passando com portas abertas ou flutuando ou com rodas enterradas no asfalto, nuvens que passam e fazem sombras na velocidade da luz… Em determinado momento, meu carro ficou preso porque passou em cima de um… Guarda-Chuva! Wtf!

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O game é bom e divertido, mas tem sua imersão e experiência comprometidas de acordo com o grau de aceitabilidade do jogador a esse tipo de problemas. Mafia III grita, urgentemente, por um patch de desempenho que poderia até ter adiado sua data de lançamento e melhorado muito sua recepção. Nos PCs, por exemplo, foi lançado com uma trava a 30 FPS, corrigida no dia seguinte, liberando-o para o tão fluente 60 FPS. Por que não ter lançado logo com isso ao invés de criar essa indisposição com seus clientes?

Bug se resolve e o tempo fará Mafia III ser muito melhor aproveitado do que para quem jogou no lançamento. Mas poderiam ter o cuidado de ter feito isso antes, né?

Gráficos e Sons

Os gráficos, de maneira geral, são muito bonitos em alguns pontos e muito simples em outros, o que mostra uma clara falta de polimento que talvez um tempo a mais de produção pudesse resolver. Enquanto alguns modelos nas cutscenes são absurdamente bem feitos, os que possuem bigodes ou cabelos mais volumosos expõem uma certa falta de capricho na hora de sua composição, pois mais parecem cabeças de playmobil do que cabelos propriamente ditos. Já a iluminação funciona bem e tanto o dia quanto a noite soam espetaculares; exceto pelas nuvens borradas e com pouca resolução.

Os carros estão bonitos e variados, mas o sistema de colisão que dá vida a eles está fraco e pior do que no título anterior: eles praticamente não amassam mais, não têm seus faróis quebrados e demoram uma eternidade para finalmente serem destruídos. Inexplicável. Ainda assim, o nível de detalhes em todos os cantos de New Bordeaux impressiona e temos uma série de pontos da cidade diferentemente retratados: a cidade grande, a parte rural, os esgotos, o pântano… É uma cidade grande e bonita.

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Os menus que compõe o game estão espetaculares e lembram muito sites bem feitos e coloridos. A disposição dos itens está de fácil acesso e bem distribuída, é fácil se achar no meio de tantas opções, de acessar os colecionáveis, de mexer nas configurações do jogo ou entender o gigantesco mapa. Ponto positivo aqui.

A trilha sonora, como não poderia deixar de ser pela época ambientada. mas também pelo histórico de cuidado da franquia, é espetacular e selecionada a dedo. Temos Ramones, The Rolling Stones, Johnny Cash, Creedence Clearwater Revival, Sam Cooke, The Beach Boys, Jefferson Airplane e muitos outros. Para se ter uma noção da qualidade e do bom gosto dessa seleção, basta dizer que 28 músicos daqui estão no Hall da Fama do Rock, 5 tocaram em Woodstock, 27 músicas já foram número 1 da Billboard, sendo que 5 delas estavam em primeiro lugar no ano de 68, que é quando a história se passa. Vale escutar dentro e fora do jogo.

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Conclusão

Mafia III poderia ser um novo clássico, mas, até o momento, é apenas um bom jogo graças aos inúmeros problemas que comprometem a experiência como um todo. Quem for jogar lá para a frente poderá ter um produto muito melhor, mas isso é um triste reflexo atual dos games, jogos lançados cada vez mais incompletos e corrigos posteriormente com patches e renda de vendas. Quem conseguir relevar esses problemas encontrará um jogo muito divertido e longo, com muitos coletáveis para serem encontrados e uma história que faz jus à época retratada. A 2K Games deveria ter deixado um título tão importante como esse com um estúdio mais experiente ao invés da novata Hangar 13.

Prós

  • História fantástica com boa ambientação e narrativa inovadora
  • Seleção musical escolhida a dedo e de extremo bom gosto
  • Personagens carismáticos, divertidos e profundos e protagonista marcante
  • Fácil de se jogar com boa variedade de armas e de cenários e desburocratização do gameplay

Contras

  • Acaba ficando um pouco longo e repetitivo com missões pouco variadas
  • Falhas gráficas técnicas, com gráficos simples em determinados momentos
  • Bugs, bugs, bugs e muitos bugs!
  • Falta de polimento como um todo
Rodrigo Cunha
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