Análises

The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel IV

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Cold Steel finalmente chega ao fim e de um jeito que fará qualquer fã alucinar
Erebonia foi palco de acontecimentos que deixarão sua marca nos jogadores e confesso que quanto mais se aproximava do fim, menos eu queria que essa aventura acabasse.

Acho que nunca vou esquecer do momento que resolvi conhecer a série Legend of Heroes, lá em meados de 2014. Sempre havia ouvido falar muito bem de Trails in the Sky e para minha sorte o jogo tinha recém lançado na plataforma Steam, não dei mole e já fiz o download do jogo.

Para a surpresa de ninguém, eu me apaixonei por aquele universo em questão de minutos. Dava para perceber nitidamente que a produtora da série Trails, Nihon Falcom, tinha em suas mãos uma jóia e desde então não deixaram mais a peteca cair, produzindo excelentes jogos quase que anualmente.


A vida não tem sido fácil para o Ashen Chevalier.

Agora, em 2020, a editora NIS America lançou o nono(exatamente) jogo da série Trails, que no Japão é conhecida como Kiseki. The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel IV começa poucos dias após os eventos do terceiro jogo da sub-série Cold Steel e amigos, é um jogo de tirar o fôlego. Antes de começar a análise propriamente dita, irei deixar bem claro alguns pontos, Cold Steel IV possui no Japão um subtítulo chamado End of Saga(fim da saga) e removeram isso na versão ocidental para não afugentar os novos jogadores, imagino. 

Então, Cold Steel IV é o Vingadores: Ultimato dos videogames, você precisa ter no mínimo dos mínimos jogado o III para de forma vaga entender o que está acontecendo. Não jogue Cold Steel IV como sendo seu primeiro jogo pois ele vai entregar muita coisa da história dos jogos anteriores, por motivos óbvios e se porventura você se interessar por eles, grande parte da graça terá sido perdida.

Essa recomendação que estou dando é palavra de um fã da série e que deseja que você tenha a melhor experiência possível, a comparação que fiz com os Vingadores é a forma mais “popular” de entender a situação. Num cenário ideal o recomendado mesmo é ter pelo menos jogado toda a parte de Erebonia(país onde se passa Cold Steel) para ficar claro os pontos mais essenciais. Evidentemente que ter jogado tudo até agora, como no meu caso, é a alegria suprema, mas isso aconteceu porque eu investi nessa série desde o começo, Trails não é um RPG curto e ainda por cima tem leitura pesada… enfim, o recado tá dado!

(a seção abaixo pode conter spoilers, se quiser continuar lendo outros pontos da análise, vá até “APOSTANDO NO DESTINO DO MUNDO”)

O PALCO PERFEITO

Após os eventos em Gral no final de Cold Steel III, o infeliz conto de fadas profetizado parece que se tornou realidade. Rean acaba sendo aprisionado no Black Workshop, local onde Millium e Altina foram criadas. Após alguns eventos, o Class VII é teleportado para a vila de Vita, Roselia e Emma, a vila secreta de Eryn, um lugar totalmente inacessível pelo mundo externo.


Joshua, Renne, Estelle e KeA mandando ver.

Esse refúgio das bruxas se torna palco do começo da busca de Class VII pelo instrutor Rean. Em grande parte do começo do jogo nós iremos ver o mundo pelo olhos de Juna Crawford que pode-se dizer que é a nova protagonista da série, ela possui muita presença durante os eventos que se desenrolam e posso dizer que gostei dessa mudança. Gosto bastante do Rean, ele é aquele típico herói honrado e amado por todos, quase sem defeitos. Juna em contrapartida é uma mulher decidida, com diversos problemas pessoais, mas você consegue ver uma determinação incrível nela, mesmo aparecendo de forma mais substancial em apenas dois jogos, é nítido que o desenvolvimento dela foi algo super explorado aqui.

Seria injusto falar só dela sendo que Ash, Musse, Altina e Kurt também receberam um cuidado imenso também. É realmente impossível não se apaixonar por esses personagens, apesar de eu ter um carinho enorme pela antiga Class VII, confesso que os membros da nova conseguiram me encantar bem mais, são esses personagens que carregam o fardo de um enredo complexo e intrigante, porém meticulosamente desenvolvido.

Falando em enredo, aqui ele possui um ritmo muito parecido com Trails of Cold Steel II, o que significa que grande parte do arco introdutório foi executado no jogo anterior, tais como novos personagens e localidades. Em Cold Steel IV as coisas ocorrem de uma maneira muito mais veloz e dinâmica, apesar de revisitarmos diversos locais, as lembranças são bem rápidas como um curto flashback mostrando que em determinada cidade aconteceu isso e aquilo ou mesmo durante a jornada em si com nossos heróis mencionando coisas tipo “olha, aqui foi onde enfrentamos aquele monstro e com ajuda de Emma nós fomos vitoriosos”. Algo que é extremamente recompensador para aqueles que puderam jogar Cold Steel III e claro, um toque de mestre dos desenvolvedores.

Novamente, assim como em Cold Steel II, nós iremos percorrer 2 arcos principais, o primeiro dele se trata da jornada da Class VII em busca de Rean como mencionei anteriormente. Só nessa brincadeira já vai pelo menos umas 35 horas de jogo, o tamanho de um RPG normal e dá pra dizer que não é nem metade da aventura. Só digo que se prepare para se emocionar, a cada evento é uma dose alta de adrenalina, você fica simplesmente atônito com as revelações, as aparições repentinas(clássico da série) e lógico que tudo com um acompanhamento musical digno da Falcom JDK Sound Team.

Se tem um dos pontos que mais gosto de elaborar quando falo dessa série é a atenção aos detalhes. A Falcom não criou um mundo complexo desse pra bonito, para quem não sabe a série Trails também é famosa por ter scripts imensos e isso tudo serve para ilustrar os diálogos que mudam constantemente entre os NPCs que habitam Zemuria. A cada evento grande, TODOS os NPCs irão mudar de diálogo ou mesmo mudar de local pois eles possuem uma vida à parte das coisas que estão acontecendo com os heróis. É como se fosse a grande maioria de nós, se algo de grandioso acontecesse no mundo, nós cidadãos continuaríamos sendo apenas pessoas vivendo suas vidas e em Trails é isso que acontece. 


Randy foi um dos personagens mais legais de toda essa história.

Por mais estranho que pareça, talvez esse fator seja um dos que mais fez eu me tornar um grande fã, é estranhamente legal você passar a “conhecer” um NPC sem importância alguma e ver o que aconteceu com ele. Existe inclusive NPCs que viajaram de muito longe para Erebonia como o caso de Anton, um carinha muito louco que aparece em praticamente todos os jogos da série, sendo que o mais incrível é que você pode ignorá-lo totalmente, 99% dos NPCs estão lá apenas para transformar aquele mundo no universo de RPG mais rico que existe, não estou exagerando nem um pouco.

APOSTANDO NO DESTINO DO MUNDO

Não basta ter uma história fantástica, Cold Steel IV é também o jogo mais divertido da série com um dos sistemas de batalhas em turno mais envolventes de todos os tempos. De uma forma geral pouca coisa mudou em relação ao terceiro jogo(que já era demais) em matéria de jogabilidade, aqui vemos mais um lance de refinamento em cima de refinamento.

Dá para dizer que Cold Steel IV possui 4 pilares em sua jogabilidade. A primeira delas é a exploração, os personagens se movimentam super rápido pelo mapa e ainda pode sair correndo segurando R1, tudo é veloz aqui. Nas cidades e localidades seguras, podemos falar com os NPCs, procurar pontos de interesse para completar side-quests e fazer compras, bem básico. É uma delícia explorar, ainda mais de forma tão eficiente.

Além da exploração, outro pilar é o sistema de batalhas normal. Em um combate nós controlamos 4 personagens diretamente, podendo ficar até 3 em reserva, sendo possível alternar entre eles a qualquer momento, algo que se usado com sabedoria poderá lhe salvar de situações bem perigosas. A maior novidade em relação ao III é o aumento da quantidade de pontos dos Brave Orders, que são 7 agora(antes era apenas 5), permitindo ainda mais apelações… só que com um porém, alguns chefes também podem dar sua versão dos Brave Orders, complicando ainda mais as estratégias. É divertido demais batalhar em Cold Steel IV, são tantas possibilidades e combinações de time que garanto que irás perder um bocado de tempo só para deixar a turma extremamente poderosa. Vale mencionar que esse é o jogo com a maior quantidade de personagens jogáveis na franquia até então, chega a parecer um Suikoden às vezes.


Mini-games como esse só contribuem para a diversão.

Os combates de mechas são terceiro pilar e eles estão mais legais do que nunca. Se prepare porque agora eles não são tão esporádicos quanto eram no 3, aqui ocorrem com mais frequência e boa parte das lutas mais épicas de Cold Steel IV são travadas usando esses robôs gigantes. Por fim o quarto e último pilar são os mini-games, dos que retornaram temos o clássico mini-game de pescaria, que é praticamente xerox do jogo anterior e Vantage Masters, possuindo agora a possibilidade de encarar adversários em nível Hard, eu confesso que até hoje não ganhei de um sequer nesse nível… sou péssimo em jogos de carta, apesar de que VM é divertido pacas!

Além desses dois temos o mini-game de tiro na montanha-russa em Mishelam, o Pom! que tipo um Puyo Puyo com mais carisma e Poker/Blackjack nos Casinos de Raquel e Crossbell. Acho importante existir essas pequenas distrações pois dá mais variedade ao título, apesar de serem em grande maioria bem simples.

Fique atento também em relação as side-quests pois a grande maioria possui uma janela de tempo bem curta, se você tiver o hábito de olhar sempre o mapa, dificilmente irá ter problemas para encontrar pontos de interesse.

EMBORA SEU CALOR SEJA PEQUENO

Tecnicamente Cold Steel IV ainda usa a mesma engine do jogo anterior, com algumas melhorias cá e lá, nada de incrível. Eu particularmente acho que não existe tanta necessidade de gráficos ultra elaborados em um jogo de RPG, mais importante é que foquem recursos em coisas que trazem uma identidade visual marcante e isso a série evidenciou desde o início.

Visitar uma cidade em Cold Steel é quase um evento por si só, todas elas são modeladas com objetos únicos e até os estabelecimentos possuem uma fachada com o nome dele escrito, normalmente em uma placa de metal. Por isso que até uma simples loja tem um propósito e não está lá só pra abastecer sua equipe que aparece a cada era glacial. Se você conversar com os atendentes, eles irão comentar algo sobre o local visitado ou mesmo sobre a cidade em si.

Visitamos praticamente todos os lugares que apareceram em Cold Steel III, acredito que com exceção de Heimdallr. Das novidades eu fiquei encantado com Milsante, uma pacata cidade construída em volta de um enorme lago, lembrando um pouco a cidade de Laura, Legram, minha cidade favorita de todas. Alster, a cidade natal de Oliviert também é novidade aqui e ela é bem gostosa de explorar. Muita gente acha bizarro eu lembrar tão bem do nome das cidades da série e a explicação que eu dou é bastante simples, elas são marcantes e parecem cidades de verdade, não tanto pelo tamanho(apesar de Ordis ser enorme), mas pelas suas identidades.

Em matéria de performance o jogo mira em 60 quadros, porém estaria mentindo se falasse que ele consegue manter assim. Algumas dungeons do jogo possuem efeitos transparentes que por alguma razão sobrecarrega o PlayStation 4 e faz com que apareça slows, evidentemente nada que vai estragar a experiência até pelo fato de ser um RPG de turno, entretanto mostra que essa engine precisa ser trocada urgentemente.

Eu amo a modelagem dos personagens, mal pude me conter quando vi Estelle Bright, Joshua e Renne em 3D, sem perder em nada dos detalhes dos sprites originais. Nenhum personagem é muito mais simples que outros, existe uma consistência aqui que pouco se vê em jogos com um elenco tão grande, trabalho fino. Aproveitando a brecha dos personagens eu não poderia deixar de mencionar a dublagem fenomenal desse jogo, os atores simplesmente estão destruidores, a dubladora da Juna já era excelente no III, mas aqui ela literalmente encarnou a personagem, não foram poucos os momentos que eu me arrepiava com os diálogos. 

O dublador de Ash Carbide então nem se fala, personagem com uma boca suja, a voz de Ash é perfeita e em certos momentos ouso a falar que ele superou até a dublagem de Rean, mas não… o Ashen Chevalier amadureceu demais nesses últimos 4 anos e nos momentos mais emocionantes você vai entender o que to falando.

Momentos que jamais seriam o que são se não fosse o acampamento musical divino produzida pela Falcom JDK Sound Team. A trilha sonora está carregada de faixas pesadas, emotivas e com uma instrumentação de tirar o chapéu, lógico que não fico nada surpreso com isso pois depois de tantos jogos, com músicas como Silver Will, Blue Destination e Spiral of Erebos, já ponho minhas expectativas lá no alto, eu chego a ter uma ansiedade pela trilha sonora quase tão grande quanto os jogos em si. Se você tiver o prazer de chegar nas partes finais de Cold Steel IV, seu coração estará carregado de uma energia que só aumentando o volume das caixas de som fará com que ela seja liberada.

O FIM DA SAGA

Só quero falar que feliz o dia que eu resolvi conhecer essa série, nunca havia me apegado tanto a um universo como esse e Trails of Cold Steel IV encerra essa jornada com um adeus repleto de emoções dos quais jamais irei esquecer.

Pros

  • O fim da saga Cold Steel não poderia ter sido mais incrível
  • Personagens lindos e inesquecíveis
  • Universo criado com um carinho ímpar
  • Trilha sonora e dublagem extremamente competentes
  • Sistemas de combate e mini-games que faz você não querer largar o controle

Contras

  • Exige conhecimento prévio dos outros jogos para um entendimento total

David Signorelli

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