Análises

Yakuza: Like a Dragon

A franquia Yakuza possui uma peculiaridade muito interessante que não é vista em grande parte das séries que possuem muitas sequências, uma pequena coisinha chamada de “consistência”.

Eu tive o imenso prazer de jogar praticamente todos os jogos da série Yakuza em um relativo curto espaço de tempo e reparei que a cada novo jogo nítidas melhorias eram facilmente visíveis, culminando num ponto que honestamente acho bem difícil eles transporem. Like a Dragon elevou o nível para um patamar altíssimo, mesmo amando a maioria dos jogos dessa franquia, nem o praticamente perfeito Yakuza 0 conseguiu chegar no nível do último título desenvolvido pelo Ryu Ga Gotoku.

Yakuza: Like a Dragon é a obra-prima da SEGA e você verá nessa análise o porque dessa minha afirmação.

ICHIBAN

Como muitos sabem, até o lançamento de Like a Dragon, todos os jogos da série Yakuza eram protagonizados por Kazuma Kiryu e seus amigos, entretanto após os acontecimentos de Yakuza 6: Song of Life, o arco da história de Kiryu foi praticamente encerrado e um novo “herói” se viu necessário.

Kasuga Ichiban em um cemitério

Eis que surge Kasuga Ichiban, um órfão de Kamurocho que teve uma vida difícil, sendo obrigado a roubar parar sobreviver. Em um dia de muito azar, Ichiban tentou praticar um assalto, algo normal para ele, porém o alvo não era uma pessoa qualquer e sim um membro da Yakuza, ou seja, as coisas não iriam acabar bem. Nessa situação Ichiban tinha aproximadamente uns 16 anos de idade e ele estava completamente a mercê da “boa” vontade dos membros da Yakuza que o torturaram sem piedade, até que no momento que ele iria receber o golpe de misericórdia, Ichiban grita dizendo que ele é membro da família Arakawa, um nome que ele ouviu nas ruas e tentou a sorte.

Os Yakuzas presentes no recinto ficaram chocados e obviamente duvidando da veracidade dessa informação passada pelo moleque. Para confirmar isso, um dos homens resolve ligar justamente para o patriarcha da família Arakawa com o intuito de saber a verdade. Nem o próprio Ichiban acreditava que essa história inventada poderia salvar sua pele, mas para a surpresa de todos o tal patriarca aparece e confirma tudo que Ichiban havia dito, conseguindo assim salvar o menino.

A reação inesperada.

Após esse dia Ichiban decidiu que dedicaria sua vida ao homem que lhe salvou e depois de algumas reviravoltas eles começam a trabalhar juntos. O jogo realmente começa após esses acontecimentos e mesmo as aventuras começando na nossa querida Kamurocho, o enredo se desenrola de fato em uma nova cidade, Yokohama.

YOKOHAMA

Se Ichiban é a alma do jogo, Yokohama é o coração. Essa imensa cidade é palco do arco principal da história de Like a Dragon e é nela que todos os incríveis eventos vão acontecer. Eu não conheço o Japão, muito menos Yokohama, mas mesmo assim parece que eu morei lá por alguns dias. A maneira que a história do jogonos conduz pelos diversos locais da cidade faz com que passamos a realmente acreditar naquele espaço virtual.

A cidade de Yokohama fica ainda mais bonita de noite.

O mais legal de tudo é que Ichiban também não conhece Yokohama, então diferente de Kamurocho, tudo é novidade para ele, por essas e outras que nosso herói acaba pisando onde não deve. Apesar de não ser tão “violenta” quando o famoso distrito da luz vermelha de Tokyo, o perigo sempre está a espreita, máfias de diversos países da Ásia tem territórios na cidade.

Falando um pouco de Ichiban, ele é um dos personagens mais legais que já vi em um videogame. Ele é apaixonado por Dragon Quest e faz referência a ele em tudo que você pode imaginar, indo desde a imaginação dele do que são as batalhas até os conselhos que dá para seus amigos. Apesar de ter feito parte da Yakuza, ele tem um coração enorme e sempre tenta achar um jeito de ajudar as pessoas, claro que nem sempre pensando bem antes de agir e isso é uma das coisas que difere ele bastante de Kiryu.

Kazuma Kiryu é uma pessoa muito séria e centrada, dificilmente fala bobagem e num geral realmente só dá seu pitaco quando é o momento certo. Ichiban é completamente diferente, ele tá sempre dando sua opinião, até mesmo cortando as pessoas, normalmente suas falas são bem expressivas. Agora, um grande detalhe separa a experiência de Like a Dragon em relação aos jogos protagonizados por Kiryu, nesse jogo Ichiban não está sozinho.

AMIGOS

E que amigos! Ichiban não irá encarar essa aventura de forma solo como nos jogos anteriores, personagens marcantes como o ex-policial Adachi, o morador de rua Nanba e a doida da Saeko são algumas das figurinhas que irão andar literalmente lado-a-lado com nosso herói. Não imaginava que um esquema de aventura em grupo como nos RPGs clássicos iria funcionar tão bem em Yakuza.

Adachi é uma das primeiras pessoas que Ichiban encontrará em Yokohama.

O jogo ainda conta com um sistema de Bond(laços) no maior estilão Persona onde nós evoluímos nosso relacionamento com os amigos, liberando diversas histórias secundárias e habilidades especiais. Esse bando de malucos possui uma energia contagiante e só o fato de que boa parte dos personagens possui uma idade avançada(pelo menos em relação a idade média dos RPGs japoneses), faz com que as situações sejam muito menos previsíveis e de certa forma mais fáceis de se identificar.

Ichiban já está na casa dos 40 e com uma experiência de vida considerável, por essas e outras que fica especialmente emocionante quando ele se esforça ao máximo(do jeito dele) ao tentar ajudar o próximo, como visto nos diversos personagens que aparecem nas substories. Olha, é quase impossível não se apaixonar por essa galera, do começo até os momentos finais você percebe o quão bem feito foi a construção dessa trama, sem sombra de dúvidas um dos melhores enredos que já vi em um jogo.

RPG

Você não estranhou quando eu falei que Ichiban encara sua aventura com um grupo de amigos? Caso não saiba, Yakuza: Like a Dragon sofreu uma mudança drástica em seu gameplay. Até esse título os jogos da série Yakuza eram uma mistura de adventure com brawler, quase um Streets of Rage com elementos de RPG, porém agora o sistema de combate é 100% RPG de turno, exatamente como o Dragon Quest que Ichiban tanto ama.

Efeitos de partículas por toda parte.

Com isso ficou muito mais fácil implementarem um sistema onde os amigos pudessem fazer parte, não que fosse impossível adicionar outros aliados num jogo voltado para ação, entretanto acho que a escolha da equipe de desenvolvimento foi genial. No papel é tudo bem simples, cada personagem irá agir conforme seu turno baseado no atributo de velocidade e os inimigos da mesma forma. O jogo conta com diversos ataques especiais, um mais louco que o outro e até invocações no maior estilo Final Fantasy, é mole?

O mais legal disso tudo é que os combates podem acontecer em qualquer lugar da cidade, como por exemplo no meio da rua. Os combatentes fazem parte das circunstâncias do espaço onde está ocorrendo a briga, permitindo que coisas como um atropelamento ou mesmo a explosão de um barril de gás aconteçam de forma dinâmica, sem engasgos ou coisas assim. Só falando assim não parece uma coisa muito incrível, mas acredite, depois de Like a Dragon os outros RPGs de turno onde entramos em uma tela especial de batalha vai parecer coisa da pré-história.

Algo BEM estilão RPG que colocaram também foi o sistema de Jobs ou classes, como preferir. Ichiban e seus amigos poderão em uma certa parte do jogo trocar de classes para aprender habilidades diversas. Agora é evidente que não se trata de classes clássicas como guerreiro, mago e etc… nadica, aqui temos classes mais interessantes como músico, bartender, chef, guarda-costas e até break dancer! Como eu amo esse jogo!

EXPLORAÇÃO

Yokohama possui pelo menos umas 3x o tamanho de Kamurocho, não chega a ser uma cidade do tamanho das da série Grand Theft Auto, porém é no mínimo 10x mais marcante. Tanto de dia quanto à noite, existe muito o que fazer em Yokohama. Yakuza é uma série também muito conhecida por seus mini-games e aqui não seria diferente, alguma das melhores atividades de toda franquia está aqui.

Nanba e sua caçhaça mortal.

O melhor deles é sem sombra de dúvidas o de gestão de negócios. Como parte da história, você conhecerá Eri Kamataki, que virá até você com suas preocupações sobre seu negócio que está prestes a fechar. Ichiban, sendo Ichiban, oferecerá ajuda. Como a maioria dos mini-games de negócios e gestão, trata-se de gastar dinheiro para ganhar dinheiro. Você percorrerá sequências de como administrar seu negócio, melhorá-lo, designar os funcionários certos e, no final do período, apresentar os ganhos aos acionistas. Seu objetivo é se tornar o proprietário da empresa nº 1 em Yokohama.

Ele é tão viciante que cheguei a esquecer da história principal até que chegasse a sua conclusão. Chega a ser surreal o carinho que tiveram com esses mini-games, apesar desse em específico não ser tão maravilhoso quanto o de gerir o cabaret em Yakuza 0, sem sombra de dúvidas chegou bem perto. Poderia citar outros bem divertidos como o Dragon Kart, o já conhecido Karaokê, os arcades da SEGA(Outrun!) e muitos outros… ah! Antes que eu me esqueça, um dos primeiros que temos contato é o Can Collector, que é um mini-game de catar latinha pilotando uma bicicleta equipada com uma caçamba… lógico que é totalmente insano como tudo na série.

VISUAL

A Dragon Engine em seu ápice, simplesmente. Yakuza: Like a Dragon é um dos jogos mais lindos que já vi e rodando a 60 FPS no PlayStation 5, é quase como um sonho. A cidade é tão linda que faz você querer para o tempo todo para tirar fotos, em diversos momentos até parece meio fotorrealístico, sem exageros, tenho certeza que mesmo depois de fazer tudo no jogo ainda irei querer explorar cada cantinho desse mundo virtual.

Saeko é super debochada e engraçada, uma das personagens mais interessantes do jogo.

Esqueça uma cidade cheia de prédios e construções iguais, aqui tudo foi feito de forma minusciosa, até estabelecimentos que você não pode interagir possui detalhes incríveis como pessoas dentro e interagindo com objetos. Os efeitos de iluminação são outro espetáculo à parte, é de cair o queixo quando paramos no meio da rua à noite e vemos os carros passando com faróis acesos, sem uma queda de quadros, tudo fluíndo como se aquilo ali realmente existisse.

Claro que não somente os cenários são belos, como os personagens também. Todos são lotados de detalhes e até coisas minúsculas como detalhe do material de ternos são facilmente visíveis. Outro ponto que eu achei bem bacana foram os efeitos de luz exagerados nos combates, só vendo para entender mesmo.

SOM

Depois de muitos anos, a série voltou a ter um jogo dublado em inglês. Olha, eu admiro o esforço, mas não tem como jogar isso em inglês, sério. O jogo é ambientado no Japão, com personagens japoneses em sua maioria e fica muito forçado ter vozes em um idioma que não seja o japonês. Vou confessar que apesar de ter afirmado tudo isso eu iniciei o jogo com a dublagem em inglês para ver qual é, foi interessante por um momento poder jogar sem ter que ficar lendo legenda, mas a imersão foi completamente pro saco quando entrei em uma batalha e o adversário gritou algo em japonês.

Poxa, se forem fazer um jogo dublado, não esqueçam de dublar todo mundo! Parece uma reclamação boba, mas faz você refletir no que podemos estar perdendo ao ignorar o perfeito áudio original. Sim, perfeito. A dublagem em japonês da série Yakuza é algo de cinema, não é novidade para ninguém que a dublagem japonesa é uma das melhores do mundo, mas pense que aqui temos a nata, só os melhores.

É um bastão de baseball, mas na cabeça de Ichiban é a espada lendária!

Ainda falando da parte de localização, uma boa notícia para nós brasileiros é que Yakuza: Like a Dragon possui legendas em pt-BR! Ela ficou de certa forma bem legal, cheia de gírias que no fim acabam combinando com a proposta do jogo. Eu joguei as primeiras horas com as legendas em português, mas por estar muito acostumado com o inglês logo mudei, só que isso é algo pessoal, se você não domina o idioma pode curtir as aventuras de Ichiban em português numa boa que não irá se decepcionar.

Indo agora um pouco para a trilha sonora, as faixas mais memoráveis mesmo são as do Karaokê. Para deixar mais autêntico ainda fizeram com que os dubladores originais cantassem algumas das músicas mais famosas da série, dentre elas Baka Mitai e Machine-Gun Kiss, Nanba e Adachi respectivamente detonaram nessas performances.

Nosso herói tem uma imaginação de uma criança.

COMO UM DRAGÃO

Se tudo que eu falei até agora não o convenceu que esse jogo é um dos melhores já feitos, não será com essas últimas palavras que irá fazê-lo. Yakuza: Like a Dragon é um daqueles jogos que estará eternamente na minha memória e espero mesmo que mais pessoas possam jogar essa obra-prima o quanto antes.

Pros

  • Ichiban é um dos melhores protagonistas dos videogames e seus amigos não ficam atrás
  • Yokohama é um sopro de novidade que a série precisava
  • Visualmente fantástico, são detalhes que enchem os olhos
  • Sistema de batalha mostrou que Like a Dragon fez o gênero RPG amadurecer muito
  • Trama incrível, cheia de reviravoltas


Contras

  • Não tenho o que escrever aqui

David Signorelli

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