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Assassin’s Creed Black Flag Resynced

Nessa última década, o mercado dos games virou terra de remake e remaster pra todo lado. De Resident Evil a Final Fantasy, praticamente tudo já ganhou algum tipo de retrabalho, e cravamos aqui que boa parte dessas iniciativas fez maravilhas pelo interesse renovado nas franquias.

Só que, como tudo nesse mundo dos games, nada é tão simples assim. Quando o remake constrói em cima do original sem canibalizar a alma da coisa, temos uma homenagem de respeito. Quando é só um filtro HD jogado em cima de um jogo de décadas atrás e vendido como experiência inédita, aí a fita já muda de cor: vira aquela velha jogada de faturamento fácil, estratégia que já provou dar errado inúmeras vezes. Como em tudo na vida, existe um ponto de equilíbrio ideal.

A IDENTIDADE PERDIDA (E RECUPERADA?) DA FRANQUIA

Assassin’s Creed sempre foi sinônimo de empurrar os limites do gênero lá na frente. O primeiro jogo, lançado em 2007, é considerado até hoje um dos títulos bandeira daquela geração, e o eco desse sucesso ainda ressoa pela indústria quase duas décadas depois. A Ubisoft parece ter encontrado ali a galinha dos ovos de ouro, e usou esse sucesso todo pra entrar naquela máquina de lançamento anual que definiu a empresa pela década seguinte. Por um bom tempo, parecia que ninguém segurava a Ubisoft: uma sequência atrás da outra, cada uma construindo em cima do sucesso da anterior.

Classe.

Só que, ultimamente, a Ubisoft andou vivendo uma baita crise de identidade. As ideias e sistemas originais que sustentavam os jogos foram deixados de lado em nome de uma fórmula bem diferente, focada no subgênero mais popular do momento: os RPGs. Não vamos aqui fingir que odiamos Odyssey e os títulos mais recentes que abraçaram esses sistemas, mas nunca pareceram uma experiência de Assassin’s Creed de verdade. Podiam até carregar o nome da franquia, mas ficar batendo dezenas de vezes no mesmo inimigo acaba estragando aquela satisfação única de uma morte instantânea nascida de puro talento. Afinal, somos Assassinos, não semideuses.

Shadows, lançado em 2025, parecia um passo na direção certa. Tinha tudo que a comunidade pedia, mas ainda ficava preso a uma história mais fraca e aos mesmos sistemas de RPG meio confusos. Pra muita gente, o futuro ainda parecia incerto. A Ubisoft insistia na tecla dos sistemas de RPG estabelecidos desde Origins, sem sinal nenhum do que viria a seguir. Tudo parecia perdido, até que um navio bem conhecido apareceu no horizonte com uma nova mão de tinta e um par de cantigas marinheiras pra salvar o dia: Assassin’s Creed Black Flag Resynced. Bora mergulhar nessa!

A ERA DE OURO DA PIRATARIA: UMA HISTÓRIA DE PERDIÇÃO

A história de Black Flag sempre se apresentou como uma das reviravoltas mais refrescantes da série, sempre disposta a abraçar de cabeça o cenário pirata em vez de deixar isso como pano de fundo secundário da fórmula padrão de Assassin’s Creed. Então vamos direto ao ponto antes de entrar nos detalhes: Black Flag não é só uma entrada e tanto numa das franquias mais icônicas dos games modernos, é também um dos melhores jogos de pirata já feitos.

A história de Edward Kenway começa de um jeito bem apropriado: você assume o posto de capitão depois que seu navio é avariado numa batalha naval caótica. Nesses primeiros momentos já dá pra sentir que essa aventura de espadachim vai abraçar a brutalidade da Era de Ouro da Pirataria do melhor jeito possível. Tiro de canhão e o estalo de tábuas de madeira se despedaçando estão entre as primeiras coisas que a gente vive na pele de Edward, e isso já vende muito bem o tipo de violência e destruição que vem por aí.

Vale a pena assistir todas as cutscenes, mesmo sendo muitas.

É nessa mesma batalha naval que Edward cruza caminho com um rosto conhecido, um Assassino, e depois de trocar lâminas com ele, os dois acabam encalhados numa ilha aparentemente deserta, com o Assassino agora na condição de presa. Edward, claro, faz o que qualquer pirata faria numa fria dessas, e assim começa a jornada dele como membro de fato da guilda dos Assassinos. Depois de vestir a roupagem e as lâminas escondidas, Edward conhece e faz amizade com um mercador também encalhado na ilha, e o jogador é jogado de cabeça numa das melhores histórias já contadas pela Ubisoft.

No fundo, a história de Black Flag é profundamente enraizada na Era de Ouro da Pirataria e em tudo que veio junto com aquele período. As notas de ganância, traição e a necessidade quase frenética de perseguir o próprio destino aparecem com força total nesse jogo, e a fórmula funciona muito bem ao longo de toda a campanha. Edward é um homem determinado a fazer nome numa era em que liberdade é o prêmio máximo, e a história abraça esses temas por dezenas de horas de jogatina, tanto pelas ações quanto pelas motivações que empurram o personagem adiante. É um sujeito profundamente falho, cujas próprias ambições costumam causar uma quantidade brutal de morte e destruição, mas isso não quer dizer que ele não mereça um lugar no catálogo de Assassinos que aprendemos a amar ao longo dos anos. Não é bem um anti-herói nem o vilão da história, mas existe uma camada escondida na narrativa dele que é bem mais profunda do que parece à primeira vista.

A TENTAÇÃO DA LIBERDADE: UM CONTO DE PIRATAS

Como a história de Edward está tão profundamente enraizada na Era de Ouro da Pirataria, ela se entrelaça com alguns dos nomes mais famosos daquele período, incluindo figuras clássicas como Edward Thatch, mais conhecido como Barba Negra, e Anne Bonny, e cada um deles ganha vida através de suas versões dentro do jogo. Cada personagem é movido pelas próprias vontades e necessidades, e realmente dá a sensação de vivenciar um dos períodos mais romantizados da história moderna pelos olhos de alguém que foi amigo de todos eles antes de tudo desmoronar décadas depois.

Black Flag é, acima de tudo, um conto de advertência sobre até onde os homens estão dispostos a ir pra se salvar diante de obstáculos aparentemente impossíveis, e sobre o que acontece com quem trai tudo que amava em troca de uma chance de salvação. A história bate nas mesmas notas do original, e no fim das contas entrega um retrato lindo e deprimente do que é ser o último sobrevivente de um jeito de vida que nunca deveria ter acabado. As notas de traição e ganância pesam de verdade, e quando a cortina finalmente cai sobre a Era de Ouro da Pirataria, Edward já é outro homem. Se pra melhor ou pra pior, cabe a cada um decidir por conta própria.

Ah, o contraste.

Além dessa história magistral sobre os últimos anos da era pirata, também temos aqui uma trama de Assassin’s Creed entrelaçada de um jeito quase perfeito. A maior parte do tempo com Edward é passada vestindo o manto de Assassino sem realmente fazer parte da sociedade secreta, então quando os caminhos finalmente se cruzam, isso lança uma reviravolta interessante que se sustenta até o final. A guerra contínua entre Templários e Assassinos é uma força motriz importante na segunda metade do jogo, e o jogador tem contato de sobra com personagens que parecem saídos direto da linha de pensamento clássica da franquia.

Confesso que sempre me interessei mais pelas partes piratas da história do que pelos trechos focados em Templários e Assassinos, mas isso não significa que essas partes não sejam divertidas. Elas criam uma conexão com as entradas anteriores da série e amarram tudo de um jeito que a maioria dos fãs certamente vai curtir. A produção também adicionou uma seção totalmente nova chamada Rifts, espalhada pelo mundo, que permite reviver certos momentos da vida de Edward por uma perspectiva diferente da que ele viveu originalmente.

Pensa numa espécie de “E Se” da Disney em formato de videogame. Isso adiciona uma camada extra à experiência de Resynced, e somando isso a um punhado de novas missões, principais e secundárias, o resultado é uma campanha de vinte a trinta horas, no mínimo. Encarar tudo isso ou não fica a critério de cada um, claro, mas não vemos motivo pra deixar esse jogo pela metade.

O CARIBE: A BELEZA DO SANGUE E DO MAR

Existe uma sensação estranha em ver algo num videogame que parece mais bonito do que a realidade, e a Ubisoft conseguiu isso com a versão deles do Caribe. Desde o começo, somos recebidos por oceanos azuis profundos que se estendem até onde a vista alcança, florestas tropicais vibrantes ecoando cantos de pássaros e outros animais, e cidades movimentadas que parecem construídas à imagem da vida no século 17. Cada pedaço de natureza ou ilha solitária descoberta na aventura quase sempre esconde algum recurso único ou segredo esperando pra ser encontrado. A Ubisoft criou uma experiência que é puro espetáculo visual, e isso trouxe de volta aquela sensação de encanto infantil toda vez que zarpamos pelo mar.

O mais impressionante de tudo, porém, não é só o visual acima da superfície, mas o quanto tudo fica ainda mais bonito debaixo das ondas. Através do sino de mergulho conseguido mais adiante na história, dá pra mergulhar livremente em vastas extensões do fundo do mar em busca de tesouros perdidos, e cada mergulho parece revelar um mundo alienígena escondido do dia a dia da maioria de nós.

Isso não é uma foto.

Essas seções subaquáticas ainda trazem um toque de perigo, com tubarões e outras ameaças à espreita, mas mesmo assim apresentam o fundo do mar de um jeito lindo de se ver e viver. De novo, é uma verdadeira obra-prima visual, e certamente a mais bela recriação do Caribe que já vimos num jogo.

A variedade absurda de coisas pra ver durante as viagens faz cada momento valer a pena enquanto navegamos de ilha em ilha, e nada é mais relaxante do que colocar umas cantigas marinheiras pra tocar e simplesmente largar o controle pra apreciar toda essa beleza em movimento. Mesmo quando tempestades violentas e ondas traiçoeiras interrompem a paz, não tem nada como ouvir o vento batendo contra o casco do navio. Somando um modo foto à mistura, as possibilidades ficam quase infinitas.

A DANÇA DO AÇO: A ERA DOS SABRES E DA PÓLVORA

Agora que já passamos pelo papo sobre mundo e história, vamos ao que interessa: jogar como um Assassino com tempero pirata. Resumindo, a melhor parte de toda a experiência é ser um pirata implacável decidido a saquear o Caribe inteiro, e o jogo te dá todas as ferramentas pra isso. Na base, o jogo mantém bem o estilo de jogo dos títulos originais, abandonando de vez as mecânicas de “RPG” que as entradas mais recentes andaram cultivando na última década. Isso não quer dizer que esse estilo de jogo seja perfeito, muitos dos mesmos problemas que já existiam lá no Black Flag original continuam presentes, mas seria mentira dizer que não foi uma mudança de ares bem-vinda ter esse formato de volta.

Em termos simples, a prioridade saiu de um sistema baseado em nível, no estilo RPG, pra uma exibição mais simplificada e vistosa, que valoriza aparar golpes e encadear combos usando as ferramentas disponíveis, como as lâminas escondidas e os brinquedos clássicos de Assassino. O sistema é essencialmente o mesmo de quando o original foi lançado, com alguns acréscimos de qualidade de vida bem-vindos, como a possibilidade de alternar o agachamento, e ousamos dizer que ainda funciona tão bem quanto há treze anos.

Diria que só pelas paisagens o jogo já vale teu dinheirinho, mas por sorte ainda tem um BAITA jogo por “trás”.

Executar os golpes com Edward durante as lutas foi refinado de um jeito que parece novo e familiar ao mesmo tempo. O nível de violência que dá pra infligir nos inimigos impressiona, e os novos sistemas, como a possibilidade de encadear execuções depois de um aparo perfeito, transformam cada luta numa chance de mostrar habilidade em vez de depender de quanto grind foi feito nas áreas anteriores.

Esse sistema faz com que nenhuma zona fique fora dos limites do jogador. Dá pra viajar até qualquer ilha a qualquer momento da campanha e começar uma briga com quem quiser em terra firme, e honestamente, a chance de sair vitorioso é grande se você já jogou algum Assassin’s Creed antes. Resynced vende muito bem a ideia de liberdade no combate, então não temos muita queixa, exceto pelo fato de ficar meio fácil demais às vezes brigando em terra. Lá pelo fim de jogo, dá pra encadear execuções brutais enquanto se enfrenta hordas de soldados, e isso fez a gente sentir falta desses sistemas de combate mais antigos.

Não tenha medo em explorar o mar, você pode acabar encontrando coisas interessantes!

Pra equilibrar essa sensação de liberdade no combate, a Ubisoft adicionou alguns inimigos novos pra compensar os soldados padrão. Esses novos inimigos, batizados de elites Blunderbuss e Grenade, são verdadeiras montanhas de morte cujos ataques conseguem derrubar o jogador de uma vez só se a atenção escorregar durante a luta. Eles adicionam uma camada mais caótica ao combate, mas com a possibilidade de encadear execuções, acabam virando pouco mais que carne de canhão, incomodando mais do que representando um desafio real. Isso significa que o jogo fica fácil demais lutando em terra firme com espada e as outras ferramentas?

Bem, resumindo, sim, mas deixa a gente explicar o porquê.

O momento mais revelador do combate corpo a corpo padrão aconteceu quando a esposa do redator(hahaha) estava assistindo à sessão de jogo e comentou como a IA parecia obcecada por atacar um de cada vez, mesmo com o jogador encurralado e em desvantagem numérica. Os únicos inimigos que realmente parecem interessados em desafiar de verdade são as elites mencionadas acima, e mesmo eles podem ser enganados com um tiro de pistola que abre espaço pra uma execução imediata. Isso significa que odiamos o combate? De jeito nenhum. Mas dá pra imaginar gente que vai se incomodar com essa facilidade toda. Se for o caso, basta subir a dificuldade, e cada luta passa a ter um gostinho de aposta de verdade.

SEM DAR QUARTEL: A BELEZA DA GUERRA NAVAL

Agora o combate naval, por outro lado? Nem perde tempo mexendo naquela opção de dificuldade no menu. Na real, o melhor é fingir que ela nem existe. Sabe por quê? Porque é justamente no combate naval que mora o verdadeiro desafio do jogo, e confessamos que foi uma das coisas mais divertidas dos últimos anos. Fica com a gente, marujo. Essa é a melhor parte de toda a experiência: o combate naval.

Nas primeiras horas de campanha, Edward assume o comando de um brigue que permite se mover entre as dezenas de ilhas espalhadas pelo Caribe. Ir de um lugar pro outro costuma ser perigoso, com patrulhas espanholas e britânicas de tocaia, e Edward encara essa provocação como algo pessoal, fazendo exatamente o que qualquer pirata são faria: arma o brigue até os dentes e parte pra cima de qualquer navio que ousar desafiá-lo.

Aviso sério pra vocês, moderem o uso do modo foto!

Brincadeiras à parte, o combate naval sempre foi o ponto alto que mais ficou na memória do jogo original, e a Ubisoft conseguiu melhorar um sistema que já parecia impecável. Ainda dá pra equipar o Jackdaw com uma leva de melhorias, de canhões melhores a blindagem reforçada, mas a Ubisoft foi além ao implementar modos de disparo secundários pra cada arma a bordo do navio.

Esses modos vão de barris de estilhaço a tiros aquecidos, e cada um é tão satisfatório de usar quanto qualquer outro aspecto de combate veicular por aí. A liberdade na hora de encarar cada batalha naval já é suficiente pra superar qualquer deslize do combate corpo a corpo, e é fácil perder horas caçando as dezenas de embarcações entre o jogador e a próxima missão. O combate naval já era quase perfeito no original, e de alguma forma a Ubisoft conseguiu melhorar ainda mais os sistemas. Em Resynced, não importa se o confronto é contra a escuna mais inofensiva ou o Man o’ War mais aterrorizante, cada batalha apresenta seu próprio nível de desafio, e o jogo está no seu melhor exatamente quando os canhões começam a disparar.

Pra não dizer que não coloquei uma imagem com elementos de hud.

Além das melhorias nas armas, foram adicionados três novos oficiais navais, cada um trazendo vantagens pensadas pra ajudar nos aspectos navais do jogo. Esses personagens têm suas próprias linhas de missão e motivos pra se juntar à tripulação de Edward, e foi uma bela mudança de ares conhecer um pouco do passado deles além do que pensam sobre o tempo. A adição desses oficiais navais parece mais um daqueles elementos que deveriam estar ali desde sempre. A presença deles encaixa perfeitamente na equação naval, e valeu muito a pena investir tempo nas missões de cada um.

BELEZA EM TUDO: O DESEMPENHO

Por último, vamos falar da cola que segura tudo isso junto: o desempenho. No lado técnico, Black Flag Resynced é um dos títulos mais bonitos e impressionantes lançados nos últimos anos. Cada ilha, cada árvore balançando ao vento, até o jeito como o oceano se move junto com a correnteza, tudo parece ter sido feito com o maior cuidado. O teste rodou no modo Performance num PS5 padrão, mas existem opções de sobra pra escolher, desde que a TV ou monitor aguentem o tranco.

“Um homem só entende o valor do seu rumo quando perde tudo o que guiava sua jornada.” – Edward Kenway

As opções incluem Fidelidade, a mais bonita mas travada em 30 FPS; Balanceado, buscando 40 FPS com mais ênfase em taxa de quadros e um pouco menos de capricho visual; e Performance, travado em 60 FPS com o mínimo de frescura gráfica. Testamos os três durante a primeira missão e não notamos uma diferença gigantesca numa TV 4K, o que já impressiona bastante considerando que essas opções existem. O jogo é um deleite visual toda vez que a gente para pra admirar o cenário, e não sofreu nenhuma queda de quadros ou engasgo, nem durante as batalhas navais mais caóticas da campanha.


VEREDITO FINAL

A Era de Ouro da Pirataria já acabou há muito tempo, mas Black Flag Resynced parece decidido a lembrar todo mundo por que esse continua sendo um dos períodos mais romantizados da história moderna. A beleza dessa era há muito extinta foi recriada de um jeito que dá a sensação real de navegar pelo Caribe séculos atrás, e cada viagem parece uma verdadeira homenagem à beleza da natureza. Das execuções brutais no corpo a corpo ao estrondo dos canhões nas batalhas navais, a jornada de ganância e traição de Edward Kenway continua sendo uma das entradas mais fortes de toda a linhagem de Assassin’s Creed.

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