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BLUE REFLECTION Quartet

O gênero Magical Girl, ou mahou shoujo, é queridíssimo pelo público e vem ganhando cada vez mais espaço e reconhecimento ao longo dos anos. Com todos aqueles poderes incríveis, tramas cheias de emoção e visuais fofíssimos, seria de se esperar uma enxurrada de jogos dedicados ao tema.

Só que, por algum motivo, é difícil encontrar títulos que abracem o conceito de cabo a rabo. Ambientada em seu próprio universo, com regras e estética bem definidas, a série Blue Reflection se propõe a construir um mundo mágico e heroico sobre garotas superando suas próprias batalhas internas. Através de um sistema robusto de interação e customização de personagens, essas heroínas se apoiam mutuamente para encarar o dia a dia e os perigos de uma dimensão conhecida como Common. Com o lançamento de Blue Reflection Quartet, o jogo original, sua continuação, um spin off e uma releitura em forma de videogame do anime Blue Reflection: Ray foram reunidos em uma única coletânea.

Os JRPGs são incrivelmente diversos, com mundos, personagens e temas que seria impossível enumerar de cabeça. Gigantes do gênero, como Dragon Quest e Final Fantasy, costumam seguir a cartilha clássica da fantasia medieval, assim como boa parte da própria série Atelier, da Gust. Mas, de vez em quando, aparecem RPGs de temática mais contemporânea, casos de Persona ou Mother, e levar uma dose de realidade na cara pode ser surpreendentemente revigorante. É exatamente aí que Blue Reflection se encaixa como série: em um mundo movido a coração.

Memórias Preciosas, Redescobertas

Quase uma década já, não é mesmo? Só a paixão explica um projeto conseguir se manter aceso por tanto tempo. Nascido como uma proposta de trazer mais garotas bonitas e histórias enraizadas nas dificuldades pessoais e cotidianas de jovens moças, Blue Reflection começou como um RPG de escala modesta, mas recheado de coração e transformações mágicas. O que parecia um sonho distante de continuação acabou se realizando com juros, culminando neste belo Quartet de jogos, e olha que tem mais!

A arte de Mel Kishida brilha nessa franquia.

Os verdadeiros pratos principais desta coletânea são Blue Reflection e Blue Reflection: Second Light. São eles que eu chamaria de títulos completos de fato, já que ambos são recheados de conteúdo e se propõem a entregar uma experiência de RPG por inteiro. Isso não quer dizer que o restante não valha a pena, porque Ray e Sun também são experiências totalmente válidas para os fãs da série. O jogo original e Second Light se aproximam bastante da fórmula de Atelier, também da Gust, só que com prioridades em outra ordem. Enquanto Atelier costuma apostar tudo em crafting e sistemas de gerenciamento, Blue Reflection investe muito mais em simulador social e exploração de masmorras.

Os menus são estilosos do começo ao fim.

O que me pegou de surpresa, e possivelmente vai pegar vários outros fãs da Gust também, foi a inclusão não só de Blue Reflection: Sun, um jogo mobile hoje extinto, mas de uma adaptação em forma de jogo do próprio anime Ray. Sinceramente, uma coletânea com apenas os dois jogos principais já seria mais do que eu esperava. Colocar Sun no pacote faz todo o sentido, afinal a Gust tem sido cuidadosa em preservar seus lançamentos mobile, como já vimos em Atelier. Mas transformar Ray em jogo? Uma loucura no melhor dos sentidos! Sun é uma inclusão sensacional, e eu gostei bastante do design dessa leva de garotas somado à história do Apocalipse Cinza. Ter um protagonista masculino é bem interessante e lembra bastante Sakura Wars e a narrativa moderna de gacha. Fico feliz que esse jogo tenha sido resgatado e transformado em um spin off enxuto e divertido, que espero continue acessível por muitos anos. Já Blue Reflection Ray é um pouco mais estranho na minha opinião, porque, em vez de adaptar a história do anime diretamente, você controla Ruka e Hiori pouco antes da conclusão da série, recuperando seus Fragmentos de memória. Essa abordagem traz conteúdo e contexto inéditos, mas faz o jogo perder um pouco do apelo original do anime, ainda mais usando imagens estáticas da própria série. Pelo menos esse jogo tem a ação de dar as mãos com sua Best Buddy, e olha que é até reativo! De qualquer forma, um spin off bem interessante!

Hinako perdida ao entrar no Common.

Também tenho que dar os parabéns para a Koei Tecmo pelo preço dessa coletânea! Eu esperava algo em torno de 90 dólares, no padrão das coletâneas de Atelier, mas não! Custa 50! Um preço até surpreendente, considerando que o pacote traz um jogo novo e um spin off refeito do zero. É um valor bem mais fácil de engolir, ainda que a quantidade de conteúdo entre as séries Atelier e Blue Reflection esteja em outra escala mesmo. É bom, de vez em quando, ver uma remasterização com um preço justo desses!

O Poder dos Sentimentos!

Muitos jogos excelentes colocam o jogador em jornadas épicas ao redor do mundo ou em missões perigosas em cenários espetaculares, mas, às vezes, não é bom dar uma respirada? Em termos de escala, os jogos de Blue Reflection são bem contidos, mas nem precisam ser diferentes disso. Cada jogo apresenta múltiplos reinos do Common, com um colégio funcionando quase sempre como hub principal, e, tirando algumas pinceladas em outros cenários menores, é basicamente isso. São jogos bem focados no que se propõem, sem enrolação. O verdadeiro tempero aqui são os relacionamentos construídos ao longo da jornada, então os jogos investem pesado na escrita dos personagens e na construção do universo. Prepare-se para encarar muitos olhares brilhantes e empurrar de volta sentimentos sombrios!

Agora já tá de boa.

No melhor sentido possível, esses jogos remetem a animes de Slice of Life emocionantes, com personagens enfrentando problemas bem reais de mãos dadas umas com as outras. O grande atrativo aqui, sem dúvida, é a interação entre os personagens. Andar pelo colégio, escolher opções de diálogo e participar dos diversos eventos das garotas é o forte de Blue Reflection. Interagir e ajudar as protagonistas a superar suas dificuldades do dia a dia, ao mesmo tempo em que lidam com questões de Magical Girl fervilhando por baixo, é a razão de estar aqui. Os jogos têm sim uma pontinha de peso dramático e um lado mais sombrio, mas sem chegar ao tom quase adulto de Persona. Ainda assim, os personagens conseguem equilibrar um realismo cru com aquela aura típica de anime. O drama não é subestimado nas tramas principais, e a diversão também não fica de lado no material extra, criando uma compreensão bem redonda da obra como um todo. É a luz encontrada nas pessoas que você conhece que aponta o caminho e traz alegria para a vida. É simplesmente gratificante viver essa experiência, e, convenhamos, gratificante de forma bem concreta também, o que sempre ajuda.

É importante sempre ficar de olho na TIMELINE.

Talvez meu aspecto favorito de toda essa construção de relacionamentos sejam os Fragmentos. É uma recompensa incrível para quem dedica tempo a cultivar esses laços e se envolver de verdade com o jogo. Os Fragmentos são coletados ao longo da aventura e do avanço nos relacionamentos, e cada um representa um personagem ou momento marcante, além de servir como peça fundamental no seu kit de batalha. Isso porque os Fragmentos podem ser equipados nas diferentes habilidades de combate das garotas para potencializá-las ainda mais. Esses bônus vão desde a aplicação de um status até a cura de HP ao causar dano. Combinar os Fragmentos certos com as habilidades certas vicia, e permite montar estratégias extremamente poderosas em combate.

Palavras Floridas, Retribuição Espinhosa

De um jeito ou de outro, os jogos da Gust costumam apostar tudo nos personagens e no mundo, com a intenção de criar experiências que qualquer um consiga abraçar e curtir. Isso não quer dizer, porém, que Blue Reflection não tenha profundidade ou um sistema de combate interessante. Muito pelo contrário! O gameplay que sustenta o catálogo da Gust se apoia em customização e em uma boa interligação entre os sistemas, tudo pensado para se encaixar perfeitamente.

Second Light é disparado o melhor produto dessa coletânea.

Uma mecânica de combate sólida, somada a uma customização deveras caprichada, torna as batalhas do primeiro jogo da série divertidas de um jeito bem simples, com direito a elementos de knockback e timing. Com os Fragmentos, dá para montar todo tipo de estratégia com buffs, debuffs e ataques turbinados, mas também é simplesmente divertido manipular a linha do tempo e forçar os inimigos à rendição. Simples, porém satisfatório. Já com Second Light empurrando a série para frente, o combate evoluiu. Em vez do sistema por turnos do primeiro jogo, Second Light adota comandos em tempo real, com combos e um sistema de troca de marchas. Isso deixa as batalhas com uma sensação mais rápida, abandonando de vez a mecânica de recarga. Agora você causa mais dano conforme monta seu combo, e quanto mais ataques desfere, mais avança na linha do tempo, liberando habilidades ainda mais poderosas. Ao alcançar a terceira marcha, sua garota se transforma em sua forma Reflector e ganha um baita reforço de poder. Essas mecânicas extras deixam as batalhas mais ágeis e oferecem mais elementos estratégicos para o jogador equilibrar, obrigando um planejamento customizado rumo a grandes danos, sempre contando com o sistema de Fragmentos. Um pouco da estratégia mais refletida se perde com o tempo real, mas isso é mais do que compensado na execução da gestão de combate.

Que fofinhas!

Um dos aspectos mais bacanas dessa coletânea é a inclusão de Blue Reflection Ray e Sun, trazendo de volta as histórias de um jogo mobile já encerrado e de um anime já concluído. Isso é feito, em parte, reconstruindo esses outros projetos com a mesma base de Second Light. Batalhas memoráveis são recriadas com o sistema de combate evoluído da sequência, colocando as garotas favoritas dos spin offs em confrontos familiares, com direito a troca de marchas. Isso ajuda a costurar Sun e Ray em conjuntos coesos e satisfatórios.

VEREDITO

Com tantos RPGs voltados à alta fantasia dominando o mercado, é fácil esquecer que o gênero também comporta outras estéticas. Aí entra Blue Reflection Quartet, uma coletânea heroica com tema de Magical Girl. Esses jogos encantadores transbordam estética shoujo, ao mesmo tempo em que oferecem belos momentos entre personagens intercalados com batalhas em alta marcha em uma variedade de heartscapes. Esse pacote quase milagroso não traz apenas versões remasterizadas de Blue Reflection e Blue Reflection: Second Light, mas também dois spin offs que se passam entre os eventos dos jogos principais. Blue Reflection Ray reconta o anime de mesmo nome sob uma perspectiva diferente, e Blue Reflection: Sun recompila a história de um jogo mobile já fora do ar em uma experiência jogável. Esses títulos são amarrados pelo sistema de combate de Second Light, trazendo cada jogo da série de volta à vida de forma bem estrondosa.

Olhando de perto para o gameplay e o mundo dessa coletânea, encontramos ainda mais surpresas, com batalhas baseadas em timing que aumentam de intensidade e poder, intercalando dias comuns de colégio com encontros entre as garotas capazes de derreter qualquer coração. Proteja quem não pode se proteger sozinho e resguarde o mundo transformando-se em uma Reflector, mergulhando nos heartscapes do Common para derrotar demônios. Na superfície, tudo parece simples, mas, quando as peças se encaixam, a experiência desabrocha em algo delicioso. Com recursos extras de qualidade de vida, como salvamento automático, alguns temperos de conteúdo novo e os gráficos remasterizados valorizando ainda mais a bela arte do jogo, fica ainda mais tentador. Para quem procura algo que capture a sensação de um anime Slice of Life ou sempre quis um RPG de temática Magical Girl: não deixe passar Blue Reflection Quartet.

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