Quando recebi minha cópia de Nioh 3, confesso que o frio na barriga foi inevitável. Com a agenda apertada, eu me perguntava se teria fôlego para encarar mais um “Souls-like” de respeito.
Já conhecia a franquia desde os primórdios do PS4 e, depois de sobreviver a Sekiro e Dark Souls, a dúvida era se eu conseguiria dedicar a atenção total que o “grind” e a dificuldade desses jogos exigem. Pois bem, Nioh 3 não só capturou minha atenção, como transformou o sofrimento das caminhadas difíceis em um verdadeiro deleite visual e mental. Entre combates espalhafatosos, sequências rítmicas e uma montanha de loots, o jogo da Team Ninja provou ser impossível de largar.
A trama te joga direto na fogueira logo após as primeiras horas, onde você assume o papel de novo Shogun do Castelo de Edo. O roteiro deixa claro que a sede de poder corrompe até os laços mais próximos. Aqui, seguimos os passos do Shogun Tokugawa Takechiyo, cujo irmão mais novo, Kunimatsu, não aceita muito bem a sucessão. O rapaz foge para as colinas e sela um pacto de sangue com os Yokai, os demônios da mitologia japonesa. Seus pensamentos sombrios agora guiam um exército infernal portões adentro de Edo. A história oficial foi alterada pela mágica negra, e cabe a você reescrever o destino para retomar o legado da sua dinastia.
O jogo é uma verdadeira aula de história alternativa, levando o jogador por diferentes períodos de conquista, do Sengoku ao Bakumatsu. Ao lado do seu Espírito Guardião, você terá que encarar o inimigo de frente para virar o jogo nesta nova era Shogun. Conforme você restaura a linha do tempo, percebe que o rancor de Kunimatsu não nasceu sozinho, e a ligação dele com os Yokai vai se revelando de forma profunda. O destino dessa dinastia japonesa é incerto, mas a jornada para moldá-lo é épica. Com tantas reviravoltas, fica óbvio que o desafio não será pequeno.
O que sempre fez Nioh se destacar no meio de tantos clones de Dark Souls foram suas mecânicas únicas de combate e um sistema de loot quase saturado de tantas opções. Nioh 3 eleva isso à enésima potência. O jogo empurra seus limites e exige que você pense estrategicamente antes de abordar qualquer chefe. Os diferentes estilos de luta e tipos de armas introduzem variações que forçam o jogador a encontrar o combo perfeito para aumentar suas chances de vitória. A Team Ninja não ficou apenas no básico e trouxe novos recursos que fazem este título brilhar muito mais que seus antecessores, satisfazendo qualquer desejo de fã de RPG de ação.
A curva de aprendizado em Nioh 3 é fantástica. Embora as novas funções possam parecer esmagadoras no início, o jogo oferece uma abordagem mais simplificada para te preparar. É a representação perfeita de como aprimorar habilidades através da experimentação, testando armas e magias que melhor se adaptam a cada situação. Esqueça o esmagamento aleatório de botões; os dias de “button-mashing” acabaram. Para ser bem-sucedido aqui, você vai precisar usar cada parte do seu cérebro e se adaptar constantemente aos padrões dos inimigos.
Um dos pilares desse sistema são as posturas de combate, e em Nioh 3, as posturas “Samurai” e “Ninja” são as grandes estrelas. Cada uma possui armas específicas, armaduras próprias e habilidades distintas. A postura Samurai é a zona de conforto para os veteranos, focada em bloqueios eficientes e no famoso sistema de regeneração de KI (estamina). Cada ação consome KI, mas o sistema de “Pulso de KI” permite recuperar fôlego instantaneamente se você apertar o botão no momento em que o círculo azul brilha ao redor do personagem. É um sistema baseado puramente em habilidade, essencial para esvaziar a barra de postura dos chefes e deixá-los vulneráveis a ataques devastadores. É o estilo “lento mas constante”, focado em dano massivo e defesa sólida.
Já a postura Ninja é o oposto: puramente agressiva. Nela, você troca o bloqueio pela esquiva em forma de névoa, que inclusive gera um clone temporário para distrair o oponente. Isso permite flanquear o inimigo e desferir ataques críticos potentes por trás, mas exige um timing impecável antes que o clone suma. O ponto alto é que você pode alternar entre essas posturas instantaneamente durante o combate. Se você trocar de estilo no momento exato de um ataque inimigo, realiza um contra-ataque poderoso e já entra na nova postura pronto para continuar o combo. É como lutar com duas classes ao mesmo tempo. No começo parece caótico, mas quando você domina a troca, se sente invencível.
Além das armas, as habilidades místicas e os golpes especiais ajudam a moldar as batalhas contra oponentes poderosos. Nioh 3 consegue ser um pouco mais permissivo com erros do que um Dark Souls 3, tornando as lutas contra chefes mais acessíveis sem deixá-las entediantes. No início, os chefes assustam, mas assim que você decifra os padrões, a batalha se transforma em uma dança estratégica. A flexibilidade do seu equipamento ajuda muito nesse processo, permitindo ajustes finos que tornam os confrontos menos “apelões” e mais baseados em técnica.
Outra grande evolução é o conceito de campo aberto. Diferente dos antecessores, que eram mais lineares, Nioh 3 te incentiva a explorar os cenários no seu próprio ritmo. E vale muito a pena, já que o sistema de loot é vasto. Explorar o mundo criado pela Team Ninja é gratificante não só pelos detalhes visuais, mas porque essas áreas escondem mini-chefes, itens raros e missões secundárias que ajudam no nível do personagem. Você pode encontrar artes marciais e movimentos de Ninjutsu que muitos jogadores que só seguem a linha principal jamais verão.
Esse conceito de exploração só funciona tão bem porque agora temos as habilidades de corrida e pulo. O pulo não serve apenas para alcançar lugares altos, mas abre novas táticas de combate: pular sobre um inimigo permite atordoá-lo e causar dano massivo antes mesmo da luta começar oficialmente. O design dos níveis foi pensado para que você possa limpar inimigos menores de forma tática antes de enfrentar os grandalhões. Isso torna o mundo mais vívido e funcional, dando ao jogador o controle total sobre como abordar cada perigo.
No lado técnico, joguei no PS5 no Modo Performance e a experiência foi fluida. Claro, existem alguns soluços técnicos menores, como texturas que demoram um pouco para carregar ou reflexos exagerados em superfícies que não deveriam brilhar tanto, mas nada que quebre a imersão. No fim do dia, o jogo performa bem e entrega o que promete. Nioh 3 prova que não é apenas mais um título em um gênero saturado, mas uma experiência recompensadora e profundamente envolvente.
Veredito
Em suma, Nioh 3 é o título mais completo e ambicioso da série. O sistema de duas posturas cria um dinamismo único que força o jogador a dominar o tempo em vez de apenas atacar sem pensar. As lutas contra chefes são desafiadoras e justas, oferecendo uma liberdade estratégica que faz cada vitória parecer merecida. A evolução para o campo aberto trouxe o frescor que a franquia precisava, tornando a exploração significativa. Se você é fã de RPGs de ação e combates baseados em técnica, Nioh 3 é uma parada obrigatória que refina o passado e aponta para um futuro brilhante.
