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Onimusha: Way of the Sword | Vale a pena?

Existem séries que desaparecem por tanto tempo que, quando finalmente retornam, fica difícil saber exatamente o que esperamos delas. Onimusha é um desses casos. Foram mais de duas décadas sem um capítulo realmente novo, tempo suficiente para que o próprio gênero de ação mudasse inúmeras vezes e para que jogos baseados em esquivas, parries e combates extremamente exigentes se tornassem praticamente uma categoria própria.

A Capcom poderia simplesmente ter recuperado a fórmula clássica, modernizado os gráficos e apostado na nostalgia, mas Onimusha: Way of the Sword segue por um caminho bem mais interessante. Ele reconhece tudo aquilo que tornou a série especial no PlayStation 2, mas usa essa herança como fundação para construir um jogo de ação moderno, brutal e surpreendentemente elegante.

Ah, meus longos cabelos vermelhos…

E talvez não existisse protagonista melhor para representar essa nova fase do que Miyamoto Musashi. Aqui, o lendário espadachim é jogado no centro de uma guerra que nunca pediu para enfrentar. Kyoto está sendo consumida pelos Genma, criaturas demoníacas que atravessaram para o mundo dos vivos, enquanto Musashi acaba ligado a uma misteriosa Manopla Oni habitada pelo espírito de Shizuka. O poder da manopla pode ser essencial para impedir a destruição da cidade, mas existe um conflito interessante na forma como Musashi enxerga tudo isso. Para alguém que dedicou a vida inteira ao aperfeiçoamento da espada, depender de uma força sobrenatural que não considera verdadeiramente sua está longe de ser motivo de orgulho. No fim, porém, monstros continuam aparecendo e alguém precisa cortá los ao meio.

A história funciona muito bem justamente porque entende que o centro de Onimusha não precisa ser uma narrativa excessivamente complicada sobre demônios, poderes ancestrais e destinos grandiosos. Tudo isso está presente, claro, mas Way of the Sword é antes de qualquer coisa uma história sobre guerreiros e a maneira como eles enxergam sua própria força. Ao longo de uma campanha que facilmente ultrapassa as 20 horas, Musashi cruza o caminho de personagens igualmente fascinados por combate, honra e poder, enquanto sua relação com Shizuka e com os sobreviventes de Quioto lentamente revela um lado muito mais humano do protagonista.

Uma espada vale mais que mil palavras

Mas sejamos sinceros: estamos aqui principalmente para lutar. E é justamente nesse ponto que Onimusha: Way of the Sword deixa de ser apenas um bom retorno para se tornar um dos melhores jogos de ação que a Capcom produziu nos últimos anos. O sistema de combate parece relativamente familiar durante os primeiros minutos. Musashi pode bloquear, esquivar, aparar golpes e responder aos ataques inimigos, ferramentas que qualquer pessoa que tenha jogado alguns dos grandes títulos de ação recentes reconhecerá imediatamente. A diferença está na maneira como todas essas possibilidades começam a conversar umas com as outras.

Não tá fácil a situação para nosso herói!

Aparar sucessivos ataques pode colocar Musashi em uma posição extremamente favorável, enquanto deflexões executadas no momento exato destroem rapidamente a resistência dos inimigos e abrem espaço para finalizações devastadoras. O clássico Issen, uma das marcas registradas de Onimusha, retorna como aquele golpe que transforma precisão e coragem em puro espetáculo. Atacar exatamente quando o adversário inicia determinada ação pode resultar em um contra ataque brutal, enquanto alguns confrontos acabam em disputas diretas de força ou pequenos duelos em que leitura e reflexo passam a ser tão importantes quanto simplesmente causar dano.

O resultado é um combate com uma característica que nem sempre encontramos em jogos desse tipo: ele consegue ser extremamente técnico sem parecer engessado. Você pode estudar cada inimigo, dominar parries, destruir a barra de resistência e parecer um samurai saído diretamente de um filme de Akira Kurosawa. Também pode perder o timing de metade das defesas, entrar em pânico e começar a atacar desesperadamente quando surgir uma abertura. Curiosamente, as duas situações ainda conseguem produzir batalhas visualmente incríveis.

Qualquer deslize é tchau tchau…

É justamente essa flexibilidade que torna Way of the Sword tão prazeroso. Existe uma profundidade enorme esperando quem quiser realmente dominar suas mecânicas, principalmente nas dificuldades superiores e nos combates contra chefes, mas o jogo não exige perfeição absoluta o tempo inteiro para permitir que você se divirta. Com o passar das horas, entretanto, é difícil resistir à vontade de melhorar. Aquele parry que parecia opcional começa a entrar naturalmente no repertório, depois vem a deflexão, o gerenciamento da resistência inimiga e, quando você percebe, está deliberadamente aumentando a dificuldade apenas porque quer descobrir até onde consegue levar o sistema.

Quando o duelo realmente parece um duelo

Os chefes merecem atenção especial. Way of the Sword entende que um bom confronto entre espadachins precisa parecer mais do que simplesmente duas barras de energia diminuindo. Os melhores duelos possuem ritmo próprio, com períodos em que Musashi precisa suportar uma sequência agressiva de ataques antes de encontrar aquela pequena abertura para assumir o controle da luta. É nesses momentos que todas as mecânicas se encaixam e o jogo chega perto da perfeição.

Existe uma satisfação difícil de explicar ao bloquear um golpe, aparar o seguinte, defletir o terceiro e perceber que o adversário finalmente perdeu o equilíbrio. A animação muda, a câmera reage e, por alguns segundos, tudo aquilo que parecia uma luta desesperada passa a estar completamente sob seu controle. Não é apenas eficiente, é bonito de assistir.

Dá para dar uma descansada e curtir um Photo Mode também!

Também ajuda bastante o fato de a Capcom ter criado inimigos com estilos realmente diferentes. Os Genma não servem apenas como sacos de pancada espalhados pelo cenário. Alguns exigem agressividade, outros praticamente convidam o jogador a esperar por um contra ataque, enquanto criaturas maiores podem transformar uma arena inteira em território perigoso. Way of the Sword sabe colocar pressão sem depender exclusivamente de inimigos com quantidades absurdas de vida.

Minha maior irritação durante esses confrontos, curiosamente, vem de Shizuka. Quando o jogador falha repetidamente em alguma mecânica, ela começa a oferecer conselhos sobre aquilo que deveria estar fazendo. Em teoria é uma ajuda bem vinda. Na prática, ouvir a mesma explicação depois de errar duas ou três deflexões contra um chefe pode ser quase tão irritante quanto morrer para ele. Sim, Shizuka, eu sei que preciso quebrar a resistência dele. O problema é que aparentemente minhas mãos ainda não receberam essa informação.

Seria ótimo existir uma opção específica para reduzir essas intervenções sem precisar mexer no restante da experiência.

Uma Kyoto dominada pelo inferno

Quando as espadas finalmente voltam para a bainha, Onimusha muda de ritmo e permite explorar uma versão de Quioto no início do período Edo completamente destruída pela invasão dos Genma. Não estamos falando de um mundo aberto e, sinceramente, ainda bem. A Capcom encontrou um equilíbrio muito melhor ao construir regiões relativamente espaçosas conectadas a áreas centrais, mantendo liberdade suficiente para estimular exploração sem transformar o jogo em mais uma coleção interminável de ícones espalhados por um mapa gigantesco.

Conforme Musashi aumenta sua conexão com a Manopla Oni e aprende novas formas de utilizar seus poderes, caminhos anteriormente inacessíveis começam a se abrir. Isso dá uma agradável sensação de descoberta e torna interessante revisitar algumas regiões, principalmente porque os cantos menos óbvios frequentemente escondem recompensas ou pequenas surpresas. O jogo nunca tenta se transformar em um metroidvania, mas entende muito bem o prazer de olhar para determinado lugar e pensar que talvez exista uma maneira de chegar até ali mais tarde.

Essa estrutura também faz com que Quioto pareça uma cidade, e não apenas uma sucessão de corredores construídos para conectar batalhas. Templos, santuários e ruas destruídas pela invasão formam uma ambientação constantemente melancólica. Existem sinais de que pessoas viveram ali até muito recentemente e de que aquela normalidade foi arrancada à força pela chegada dos Genma. Quanto mais a ameaça começa a recuar, mais fácil fica perceber o contraste entre a beleza histórica da cidade e as criaturas grotescas que agora ocupam seus espaços.

A RE Engine continua fazendo absurdos

Não chega a ser exatamente uma surpresa dizer que um jogo moderno da Capcom é visualmente impressionante, mas Onimusha: Way of the Sword merece o elogio. A RE Engine continua demonstrando uma versatilidade absurda, seja reproduzindo corredores claustrofóbicos de Resident Evil ou cidades japonesas tomadas por monstros.

RE Engine ainda tem muita lenha pra queimar.

Quioto é lindíssima. Ruas cobertas por poeira e destroços convivem com templos enormes, vegetação, lanternas e interiores cuidadosamente iluminados. A direção de arte sabe quando utilizar cores fortes e quando praticamente retirar a vida do cenário para reforçar a presença dos Genma. Alguns dos melhores momentos acontecem simplesmente porque o jogo deixa o jogador observar determinada construção antes de colocar alguma criatura absolutamente horrível na frente dela.

Os personagens são ainda mais impressionantes. A escolha de utilizar a aparência de Toshiro Mifune, um dos maiores ícones do cinema samurai, como base para Miyamoto Musashi poderia facilmente ter parecido apenas uma jogada de marketing, mas combina perfeitamente com a personalidade construída para o protagonista. A Capcom confirmou desde a apresentação inicial do personagem que Mifune serve como modelo facial de Musashi, algo que ganha ainda mais impacto vendo suas expressões durante as cenas.

Miyamoto Musashi vai comer o pão que o diabo amassou.

Musashi possui aquela mistura maravilhosa de confiança, irritação e absoluto desinteresse por qualquer coisa que não envolva uma espada. Ele pode demonstrar compaixão genuína por alguém em uma cena e, momentos depois, fazer uma expressão de profundo desgosto porque algum problema está impedindo que simplesmente siga seu caminho e enfrente outro adversário. É um personagem extremamente fácil de gostar.

Um elenco que acompanha Musashi à altura

Way of the Sword também acerta bastante nos personagens ao redor do protagonista. Muitas figuras partem de personalidades históricas reais, mas a Capcom não parece particularmente interessada em construir uma aula de história. Ela utiliza nomes, características e inspirações como ponto de partida para criar sua própria versão fantástica daquele Japão, algo que combina perfeitamente com uma história onde guerreiros utilizam manoplas mágicas para arrancar almas de demônios.

A dublagem também merece atenção. Existe uma escolha curiosa na versão inglesa, com muitos personagens utilizando sotaques britânicos, algo que certamente não agradará todo mundo e que inicialmente causa certo estranhamento. A atuação de Kenichiro Thomson como Musashi, porém, funciona excepcionalmente bem e ajuda demais na caracterização do personagem.

Você quer um jogo TOTALMENTE em pt-BR? Capcom é isso amigos.

Para nós, existe ainda uma ótima notícia: a versão brasileira conta não apenas com legendas e menus em português, mas também com dublagem em português do Brasil no PS5. A própria PlayStation Store brasileira lista português entre os idiomas de voz disponíveis.

É uma adição especialmente importante em um jogo com bastante diálogo e cenas cinematográficas, além de mais um exemplo de como as grandes produções japonesas estão tratando o mercado brasileiro com uma atenção muito maior do que víamos alguns anos atrás.

Um retorno que não vive de nostalgia

Talvez o maior mérito de Onimusha: Way of the Sword seja não parecer desesperado para lembrar o jogador de que Onimusha já foi uma franquia importante. Existem referências, conceitos conhecidos e mecânicas clássicas. Absorver almas dos inimigos continua sendo parte fundamental da identidade do jogo e o Issen permanece tão satisfatório quanto os fãs lembram. Mas absolutamente nada depende de conhecer os títulos anteriores.

Isso é particularmente importante porque estamos falando do primeiro Onimusha completamente novo em mais de 20 anos. Em vez de exigir que uma nova geração conheça quatro jogos lançados majoritariamente no PlayStation 2, a Capcom tratou Way of the Sword praticamente como um novo ponto de entrada para a série.

Quem cresceu jogando Onimusha vai reconhecer seu DNA imediatamente. Quem nunca tocou na franquia encontrará simplesmente um excelente jogo de ação.

E isso talvez explique por que tudo funciona tão bem. Way of the Sword não tenta competir diretamente com Dark Souls, Sekiro, Nioh ou qualquer outro nome utilizado inevitavelmente em comparações com jogos de espadas. Ele absorve algumas lições deixadas por essa evolução do gênero, mas permanece muito mais interessado em criar sua própria fantasia de ser um espadachim absurdamente habilidoso.

VEREDITO

Onimusha: Way of the Sword é o tipo de retorno que uma série adormecida merece. Ele preserva elementos suficientes para continuar reconhecível, mas muda praticamente tudo aquilo que precisava mudar para funcionar em 2026. O combate é excelente, os duelos conseguem ser técnicos e cinematográficos ao mesmo tempo, explorar Quioto nunca se transforma em uma obrigação e Miyamoto Musashi é facilmente um dos protagonistas mais carismáticos que a Capcom criou nos últimos anos.

Existem pequenas irritações, como as intervenções excessivamente insistentes de Shizuka durante alguns combates, e determinados jogadores talvez estranhem inicialmente o quanto esse Onimusha se distancia estruturalmente dos jogos originais. São reclamações minúsculas diante da qualidade do conjunto. Foram mais de vinte anos esperando para ver Onimusha novamente ocupando esse espaço. Depois de Way of the Sword, espero sinceramente que a Capcom não nos faça esperar outros vinte.

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