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15 de setembro de 2026
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Quem disse que salvar o mundo dá mais dinheiro que abrir uma loja?

Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon Classic HD é um jogo que pode parecer estranho para quem nunca teve contato com Mystery Dungeon, principalmente por causa de sua estrutura mais rígida e da possibilidade de perder praticamente tudo depois de uma morte. Mas, para quem entra na brincadeira e entende a proposta, existe uma satisfação enorme em aprender com cada tentativa e chegar um pouco mais longe na próxima. A reformulação visual talvez nem fosse necessária para que o jogo continuasse interessante, mas é um bônus muito bem-vindo e ajuda a dar uma nova vida a um clássico que passou tempo demais longe do Ocidente.

Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon Classic HD | Vale a pena?

Quando se fala em Dragon Quest, é impossível não pensar na franquia que ajudou a moldar os JRPGs como conhecemos hoje. O que muita gente talvez não saiba é que a série também teve um papel importantíssimo na popularização dos chamados Mystery Dungeon, um subgênero que acabou se tornando gigantesco no Japão.

Tudo começou com Rogue, lançado originalmente para PC na década de 1980. O jogo introduziu ideias brilhantes como geração procedural e uma experiência praticamente infinita, mas também era conhecido por ser extremamente pouco acessível para o jogador comum. Antes de Torneko’s Great Adventure pegar essa fórmula e transformá-la em algo muito mais amigável, encarar o Rogue original significava lidar com gráficos em ASCII completamente abstratos, bastante aleatoriedade e uma filosofia de tentativa e erro que basicamente esperava o jogador morrer para aprender.

Assim era o original, o charme já estava presente.

Torneko’s Great Adventure não foi apenas o primeiro jogo da série Mystery Dungeon, mas também o primeiro spin-off de Dragon Quest. A ideia cresceu tanto que acabou dando origem a uma franquia própria e ajudou a abrir caminho para séries como Shiren the Wanderer. E pensar que um jogo tão influente ficou restrito ao Japão por mais de 30 anos. Agora, finalmente, essa história muda. Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon Classic HD chega com uma bela reformulação visual em HD-2D e, pela primeira vez, com suporte ao inglês. Isso significa que jogadores do Ocidente finalmente podem descobrir por conta própria um clássico que influenciou incontáveis títulos ao longo das décadas.

Uma história simples, mas muito simpática

Você já jogou Dragon Quest IV? Um dos capítulos do jogo é justamente protagonizado por Torneko, um comerciante rechonchudo que sonha em construir a maior loja do mundo. O personagem é humilde, ligado à família e extremamente esperto quando o assunto é comércio. Ao longo de sua aventura, ele acaba construindo um verdadeiro império, ajudando a financiar até mesmo a abertura de um túnel que atravessa o continente e colocando seu próprio navio e seus recursos à disposição dos heróis para enfrentar o mal.

Torneko pode não ser um guerreiro fortão, mas é destemido o suficiente!

Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon Classic HD começa depois dos acontecimentos de Dragon Quest IV, com Torneko se estabelecendo próximo a uma pequena cidade para criar sua família. Como bom comerciante, ele logo começa a pensar em abrir uma loja, mas existe um pequeno problema: é preciso ter mercadorias para vender. A solução está em uma caverna próxima, cheia de tesouros e monstros. Torneko pede autorização ao rei para explorá-la, mas recebe uma resposta negativa. O local é um labirinto que muda constantemente e guarda perigos que não podem ser ignorados. Para provar que está preparado, o rei faz um desafio simples: chegar ao décimo andar e recuperar uma coroa perdida.

Não esqueça de usar os Scrolls.

Essa missão funciona praticamente como um tutorial para apresentar a principal ideia do jogo. Torneko precisa entrar na masmorra, coletar o máximo de itens possível e voltar vivo para vender tudo em sua loja. O dinheiro obtido serve para melhorar a loja e expandir a própria casa de Torneko, que pouco a pouco deixa de ser uma pequena residência e se transforma em um verdadeiro império comercial. E sim, acredite, existe um final para tudo isso. Ao chegar às profundezas da masmorra principal, Torneko encontra a chamada Caixa da Felicidade. Só que, em uma das reviravoltas mais típicas de Dragon Quest que você poderia imaginar, ela não é um artefato cósmico capaz de realizar desejos nem um tesouro de valor incalculável. A verdade por trás da caixa é simples, curiosa e até um pouco inesperada. No fim das contas, a verdadeira felicidade não estava em encontrar um item mágico. Estava na própria jornada e no negócio que Torneko conseguiu construir ao lado de sua família. É uma conclusão surpreendentemente bonitinha para um jogo cuja principal obsessão é justamente o valor do dinheiro.

Um dungeon crawler onde cada passo importa

A estrutura de Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon Classic HD gira completamente em torno de movimentação em turnos sobre uma grade. A câmera é posicionada de cima e cada ação realizada por Torneko consome um turno. Andou uma casa? Um turno. Atacou um inimigo? Um turno. Comeu um item? Um turno. E para cada ação de Torneko, todos os monstros presentes na masmorra também realizam exatamente uma ação. O tempo só avança quando você se movimenta, o que transforma cada corredor em uma espécie de quebra-cabeça tático onde pensar alguns segundos antes de agir pode fazer toda a diferença. É um sistema antigo, simples e bastante direto. Em alguns momentos ele pode parecer rígido demais, especialmente para quem está acostumado a jogos de ação, mas tudo começa a funcionar muito melhor quando você entende que a proposta não é velocidade. Aqui, o objetivo é observar, pensar e escolher o próximo movimento com cuidado.

Eu odeio esse monstro com todas as minhas forças.

A grande base da experiência está na combinação entre geração procedural e morte permanente. Cada vez que Torneko entra na masmorra, todo o cenário é recriado. A disposição dos corredores, os itens, as armadilhas e até a posição dos inimigos são completamente diferentes. E o nível do personagem volta para um. É aqui que entra uma das particularidades mais importantes desse tipo de jogo. Seu progresso real não está em ficar cada vez mais poderoso de uma tentativa para outra, mas no conhecimento que você adquire sobre as mecânicas e na forma como aprende a utilizar os equipamentos encontrados pelo caminho. Nunca dá para saber exatamente como uma nova tentativa vai acontecer. Você pode estar fazendo tudo certo e, em questão de segundos, transformar uma aventura promissora em uma morte completamente ridícula.

Armadilhas? Sim.

E morrer dói. Quando Torneko cai, ele volta para a superfície sem todo o ouro acumulado e perde todos os itens encontrados durante aquela tentativa. Para muita gente, esse é provavelmente o momento em que o jogo vai fazer você querer desistir. Só que existe algo estranhamente viciante nisso. Encontrar a escada para o próximo andar depois de uma sequência particularmente difícil provoca uma sensação de alívio e satisfação difícil de explicar. Você sabe que pode morrer a qualquer momento, então cada pequeno avanço parece importante. Até a fome entra nessa brincadeira. A barra de fome diminui constantemente e obriga Torneko a encontrar comida durante a exploração. E sim, isso significa pegar pão do chão imundo de uma masmorra e mandar para dentro sem pensar duas vezes. É feio, mas é o que mantém o nosso comerciante rechonchudo de pé.

Um clássico de mais de 30 anos com cara nova

Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon Classic HD deixa bastante claro que sua origem está em um jogo de Super Famicom. Visualmente, ele pode não parecer ter mais de três décadas, mas algumas de suas estruturas definitivamente entregam sua idade. Os menus são extremamente simples e há várias janelas de texto que aparecem com frequência e deixam o ritmo um pouco mais lento do que estamos acostumados atualmente. Algumas ações, como girar Torneko ou navegar pelos menus, não consomem um turno, o que ajuda bastante. O problema é que lembrar exatamente onde cada comando está pode ser um pouco confuso no começo, especialmente porque um erro de input em Mystery Dungeon pode custar uma tentativa inteira. Quando isso é combinado com a aleatoriedade dos inimigos e dos itens, é inevitável que algumas partidas terminem de maneira particularmente cruel. E, curiosamente, isso também faz parte da graça. Existe uma diversão esquisita em receber a pior combinação possível de situações e simplesmente observar o jogo rir da sua cara. Você sabe que a próxima tentativa pode ser completamente diferente e é justamente isso que faz querer entrar novamente na masmorra.

Hora de vender!

Na parte visual, o jogo realmente parece aquilo que você esperaria de uma versão “remasterizada” de um RPG de Super Famicom. Não é feio, muito pelo contrário, mas também não está entre os trabalhos mais impressionantes já feitos. Por outro lado, é difícil argumentar que poderia existir uma direção melhor para esse remake. Uma das principais atrações de Mystery Dungeon na época era justamente poder ver os monstros criados por Akira Toriyama de vários ângulos. Nos jogos anteriores de Dragon Quest, os inimigos eram tradicionalmente apresentados de frente durante as batalhas. Aqui, vê-los andando pela masmorra e observá-los de diferentes posições era algo completamente novo. E a verdade é que esses sprites continuam excelentes. Mesmo décadas depois, eles ainda têm bastante personalidade e funcionam muito bem dentro da proposta visual.

VEREDITO

Dragon Quest Heroes: Torneko’s Mystery Dungeon Classic HD é um jogo que pode parecer estranho para quem nunca teve contato com Mystery Dungeon, principalmente por causa de sua estrutura mais rígida e da possibilidade de perder praticamente tudo depois de uma morte. Mas, para quem entra na brincadeira e entende a proposta, existe uma satisfação enorme em aprender com cada tentativa e chegar um pouco mais longe na próxima. A reformulação visual talvez nem fosse necessária para que o jogo continuasse interessante, mas é um bônus muito bem-vindo e ajuda a dar uma nova vida a um clássico que passou tempo demais longe do Ocidente.

David Signorelli

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