Existem jogos que envelhecem e existem aqueles que simplesmente parecem se recusar a isso. Dragon Quest XI S: Echoes of an Elusive Age – Definitive Edition pertence tranquilamente ao segundo grupo. Anos depois de sua estreia original, a aventura do Luminary continua sendo um daqueles JRPGs capazes de lembrar por que tanta gente se apaixonou pelo gênero, apostando em uma estrutura bastante tradicional, mas executada com tanto cuidado que dificilmente parece ultrapassada. É um jogo gigantesco, carismático, cheio de personalidade e que continua funcionando muito bem mesmo depois de tantos anos.
Agora, com sua chegada ao Nintendo Switch 2, a Square Enix entrega uma versão tecnicamente bem mais confortável para quem gosta da ideia de carregar uma aventura de dezenas e dezenas de horas por aí. Não estamos diante de uma nova edição recheada de conteúdo inédito, já que na essência este continua sendo o mesmo Dragon Quest XI S que conhecíamos, mas a diferença está justamente na maneira como o jogo se apresenta e roda no novo hardware. Nesse sentido, o salto em relação ao primeiro Switch é bastante perceptível. Antes de continuar, agradecemos à Square Enix LATAM pelo código cedido para esta review.
Um conto clássico contado muito bem
Dragon Quest XI não tenta reinventar o JRPG e boa parte de seu charme vem justamente da maneira como abraça as tradições do gênero. A história acompanha o Luminary, um jovem criado em uma pequena vila que descobre carregar um destino muito maior do que imaginava. O que começa como uma jornada relativamente simples rapidamente se transforma em uma aventura gigantesca, passando por reinos, cidades, vilarejos e situações que alternam com naturalidade entre humor, drama e momentos surpreendentemente emocionais.
É uma narrativa construída sobre elementos bastante conhecidos, como o herói escolhido, uma ameaça ao mundo, companheiros encontrados pelo caminho e aquela sensação clássica de estar partindo em uma grande aventura. A diferença é que Dragon Quest XI entende que não basta simplesmente apresentar esses elementos, é preciso fazer com que o jogador se importe com eles. É justamente aí que o elenco se destaca, já que Erik, Veronica, Serena, Sylvando e os demais integrantes do grupo possuem personalidade própria, conflitos interessantes e momentos individuais que ajudam a transformar a equipe em algo muito mais memorável do que um simples conjunto de personagens usados durante os combates.
Algumas das melhores lembranças do jogo, inclusive, não estão ligadas aos grandes acontecimentos da trama, mas às pequenas conversas, encontros e situações vividas ao lado desses personagens. Existe um cuidado enorme na forma como cada integrante vai conquistando espaço dentro do grupo e criando uma relação com o jogador. E sim, Sylvando continua sendo um dos personagens mais carismáticos de toda a aventura, roubando a cena sempre que aparece.
Combate tradicional que continua funcionando
Em uma época na qual várias séries clássicas procuram transformar seus sistemas em experiências cada vez mais voltadas para ação, Dragon Quest XI permanece confortável com suas batalhas por turnos. O combate começa de maneira simples, mas ganha profundidade aos poucos conforme novos integrantes chegam ao grupo, habilidades são desbloqueadas e o jogador passa a experimentar diferentes combinações de personagens, equipamentos e estratégias.
Cada integrante possui funções bastante distintas, permitindo montar equipes mais ofensivas, defensivas ou equilibradas dependendo da situação. O jogo também oferece uma boa flexibilidade para quem prefere uma experiência mais tranquila, permitindo acelerar as batalhas e deixar determinados personagens sob controle da inteligência artificial, algo particularmente útil durante confrontos contra inimigos comuns ou sessões mais longas de evolução.
Para quem busca um desafio maior, as opções de Draconian Quest continuam oferecendo modificadores capazes de tornar a jornada consideravelmente mais exigente. Não é um sistema de combate que tenta impressionar com alguma grande revolução, mas essa nunca foi exatamente a proposta de Dragon Quest. A graça está na maneira como uma fórmula clássica foi refinada ao longo de décadas até chegar a um ponto extremamente confortável, estratégico e agradável de jogar.
Um mundo que continua lindo
A direção artística também ajuda muito na longevidade do jogo. Os personagens criados a partir do inesquecível estilo de Akira Toriyama continuam extremamente expressivos, enquanto cidades, monstros e paisagens possuem aquela identidade visual imediatamente reconhecível da franquia. Slimes continuam adoráveis, criaturas gigantes continuam imponentes e os inimigos mais absurdos mantêm aquele humor visual característico que sempre fez parte da série.
É justamente esse visual estilizado que faz Dragon Quest XI envelhecer tão bem. Mesmo anos depois de seu lançamento original, há poucos momentos em que ele realmente parece um jogo antigo. As cores, o design dos personagens e a construção dos cenários continuam funcionando muito bem, e no Switch 2 essa direção artística finalmente recebe uma apresentação mais adequada, principalmente para quem conheceu o jogo no hardware original da Nintendo.
Quality ou Performance? Agora temos escolha
A principal novidade desta versão está justamente na parte técnica. Dragon Quest XI S no Nintendo Switch 2 oferece dois modos de otimização, Quality e Performance, permitindo que o jogador escolha entre resolução mais alta ou maior fluidez.
No Quality Mode, o jogo prioriza a qualidade da imagem, chegando a 1440p e 30 quadros por segundo. É uma apresentação mais limpa e definida, especialmente interessante para quem joga conectado a uma televisão e prefere resolução acima de fluidez. Já o Performance Mode reduz a resolução para 1080p, mas dobra a taxa de quadros para 60 fps, e a diferença é bastante perceptível durante toda a exploração.
Dragon Quest XI obviamente não é um jogo que dependa de reflexos rápidos. Estamos falando de um RPG por turnos, então 30 fps nunca representam um problema de jogabilidade, mas depois de experimentar a aventura funcionando a 60 quadros por segundo é difícil não perceber o ganho geral. Movimentar o personagem pelas cidades, girar a câmera durante a exploração e atravessar os enormes cenários se torna muito mais agradável, com animações mais fluidas e uma sensação geral de resposta que deixa o jogo com uma aparência mais moderna.
O mais interessante é que 1080p continua sendo uma resolução suficiente para preservar muito bem a belíssima direção artística, fazendo com que o Performance Mode tenha sido nossa escolha durante boa parte da aventura. Quem prefere resolução terá um ótimo modo Quality à disposição, enquanto quem valoriza fluidez finalmente pode jogar Dragon Quest XI S a 60 fps em um console portátil da Nintendo.
Comparado à versão do primeiro Switch, que inevitavelmente precisava fazer concessões maiores para adaptar toda essa aventura ao hardware de 2017, o salto é bastante considerável. Não estamos falando de uma transformação visual capaz de fazer alguém confundir Dragon Quest XI com um jogo desenvolvido originalmente para o Switch 2, mas a melhoria é suficiente para tornar esta a versão portátil mais agradável tecnicamente.
Definitive Edition de verdade
Além da aventura principal, esta continua sendo a versão mais completa de Dragon Quest XI. É possível jogar a campanha inteira utilizando o visual tridimensional tradicional ou transformar a experiência em um RPG 2D inspirado pelos clássicos de 16 bits. Não se trata simplesmente de aplicar um filtro sobre o jogo, mas de uma apresentação completamente diferente que funciona praticamente como uma carta de amor às origens da própria série.
A Definitive Edition também inclui histórias adicionais dedicadas aos integrantes do grupo, opções de voz em japonês e inglês, conteúdo adicional e diversas melhorias de qualidade de vida. Tudo isso faz com que Dragon Quest XI S continue sendo um jogo gigantesco, facilmente capaz de consumir dezenas de horas apenas seguindo a aventura principal e ultrapassando com tranquilidade a marca das cem horas para quem gosta de explorar, realizar missões secundárias e descobrir tudo que Erdrea esconde.
Há, porém, uma ausência que continua incomodando especialmente em nosso mercado: o jogo não possui localização para português brasileiro. Em um RPG tão longo e com tamanha quantidade de diálogos, descrições e textos, isso inevitavelmente cria uma barreira para uma parcela significativa do público brasileiro.
Uma trilha que poderia acompanhar melhor a aventura
Se existe um elemento de Dragon Quest XI que nunca acompanhou completamente a qualidade do restante da experiência, é sua trilha sonora. A Definitive Edition trouxe versões orquestradas das músicas, melhorando bastante a apresentação sonora em relação às composições sintetizadas da versão original, mas o verdadeiro problema nunca esteve exatamente na qualidade da instrumentação, e sim na variedade.
Para uma aventura tão gigantesca, a seleção musical parece pequena demais, fazendo com que determinados temas sejam repetidos tantas vezes que eventualmente começam a cansar, principalmente durante longos períodos de exploração. Existem momentos emocionais nos quais a música funciona muito bem, mas também há diversas situações em que sentimos falta de uma composição que reflita melhor o local, o acontecimento ou o clima apresentado naquele momento.
É uma questão particularmente perceptível porque todo o restante do jogo consegue criar uma enorme sensação de variedade. Os personagens têm personalidades diferentes, cada cidade possui identidade própria, os cenários mudam constantemente e a aventura sempre parece pronta para apresentar alguma novidade, enquanto a trilha sonora acaba recorrendo aos mesmos temas com uma frequência maior do que gostaríamos. Não chega perto de comprometer a experiência, mas continua sendo provavelmente o aspecto mais fácil de apontar como inferior ao restante do conjunto.
VEREDITO
Dragon Quest XI S continua sendo fantástico justamente porque não sente necessidade de reinventar aquilo que já funciona. Seu maior mérito talvez esteja em mostrar o quanto uma fórmula tradicional ainda pode funcionar quando executada com tamanho cuidado. Existe uma sinceridade muito grande nessa aventura, que quer simplesmente apresentar personagens carismáticos, cidades encantadoras, monstros absurdos, histórias emocionantes e uma jornada gigantesca para salvar o mundo, sem tentar esconder suas raízes ou correr atrás de tendências modernas apenas para parecer
