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15 de dezembro de 2025
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Um RPG grande demais para ter nascido como gacha

Octopath Traveler 0 é muito mais do que um excelente RPG por turnos. Para alguém que não suporta jogos gacha, essa versão é quase um sonho realizado. Transformar essa história em uma experiência offline, premium e alinhada ao restante da franquia foi uma decisão brilhante. Este jogo estabelece um padrão claro de como narrativas originalmente pensadas para gacha deveriam ser preservadas.

Octopath Traveler 0

Confesso que, nas primeiras horas com Octopath Traveler 0, eu não sabia exatamente o que pensar. O começo é interessante e chama atenção, mas curva de aprendizado íngreme e os primeiros fios narrativos bem tímidos deixaram uma impressão morna. Ainda assim, quase como se o jogo respondesse diretamente às minhas dúvidas, essa adaptação single-player premium de um gacha acabou me conquistando de uma forma que eu jamais imaginaria.

Depois de incontáveis horas de jogo, dá para afirmar com segurança que Octopath Traveler 0 não é apenas um dos melhores RPGs já feitos, mas também um exemplo quase ideal de como jogos gacha deveriam ser preservados.

História e ambientação

Octopath Traveler 0 adapta parte das principais histórias de Octopath Traveler: Champions of the Continent, título free-to-play ainda em andamento. Mesmo assim, o jogo funciona perfeitamente como uma experiência independente, explorando com profundidade a história de Orsterra, o mesmo mundo do primeiro Octopath Traveler, ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa própria.

Se prepare para sentir muita raiva com os vilões desse jogo.

Aqui, você cria um protagonista que vive na vila de Wishvale, um local que começa em relativa paz até ser completamente destruído por três figuras lendárias em busca de um anel específico. Herminia, Auguste e Tytos são os antagonistas centrais, cada um representando temas bem definidos como riqueza, fama e poder. Após a destruição da vila e a morte de muitos habitantes, o protagonista e sua amiga de infância, Stia, partem em uma jornada dupla: reconstruir Wishvale e buscar vingança contra esses três vilões, agora guiados por um anel mítico ligado a uma entidade divina.

Wishvale, a cidade onde tudo começou.

Essa premissa já funciona bem por si só, mas ela é apenas a superfície do que Octopath Traveler 0 realmente entrega. Sem entrar em spoilers, a caçada aos três antagonistas representa só uma fração do enredo total. Na prática, essas histórias iniciais funcionam quase como um grande tutorial narrativo. Quando o jogo realmente se abre, a escrita ganha força, profundidade e ambição, revelando uma trama muito mais ousada do que aparentava. Para quem, como eu, não tinha grande familiaridade com Champions of the Continent, essa virada foi surpreendente da melhor forma possível.

Achou que não teria fazendinha? Estamos em 2025!

A partir de algo entre 10 e 15 horas, Octopath Traveler 0 passa a apresentar uma das narrativas mais consistentes e envolventes que já vi em um RPG. Os vilões são memoráveis, os conflitos têm peso real e as apostas crescem de forma orgânica. Alguns antagonistas que surgem mais tarde estão facilmente entre os melhores do gênero nos últimos anos.

A escrita amadurece sem perder intensidade. Os temas de riqueza, poder e fama não estão ali apenas como conceitos abstratos, mas moldam personagens, motivações e consequências. Nem tudo é perfeito, já que o ritmo às vezes acelera demais e certas viradas são abruptas, mas isso é compensado por diálogos fortes, relações bem construídas e mensagens que realmente ficam. O ato final, em especial, é simplesmente extraordinário e guarda uma das sequências mais impactantes que já experimentei em um jogo.

Combate e sistemas de jogo

Toda essa força narrativa se reflete diretamente nos sistemas de gameplay. Estruturalmente, Octopath Traveler 0 é bem diferente do primeiro jogo. Em vez de montar um grupo fixo de oito protagonistas, cada um com sua própria história, aqui você recruta mais de 30 personagens jogáveis por meio de pequenas quests. As batalhas, por sua vez, colocam oito personagens em campo ao mesmo tempo, divididos entre linha de frente e retaguarda.

Essa mudança altera completamente a dinâmica do combate. É possível alternar livremente os personagens entre as duas linhas, explorando ao máximo os bônus individuais de cada um. O resultado é um sistema que incentiva uma postura mais agressiva e estratégica.

Sensação de dar um BREAK é boa demais.

Para quem não conhece a série, o combate gira em torno de explorar as fraquezas dos inimigos para quebrar suas defesas, enquanto você gerencia buffs, debuffs e o sistema de Boost. A cada turno, os personagens acumulam pontos de boost que podem ser usados para fortalecer ações, chegando a até quatro por turno. Com oito personagens ativos, o potencial de dano é enorme. No início, isso faz o jogo parecer fácil demais, o que me deixou preocupado com o equilíbrio a longo prazo.

Felizmente, após o que considero ser o verdadeiro fim do tutorial, a dificuldade sobe e passa a exigir uso inteligente das duas linhas e da composição do grupo. Não chega ao nível brutal do chefe final do primeiro Octopath, mas pune erros e exige planejamento. A liberdade de escolha de equipamentos, habilidades e personagens mantém o engajamento alto. O protagonista, inclusive, pode trocar livremente entre todas as classes do jogo, se adaptando a qualquer estratégia. Já os demais personagens possuem funções mais fixas, algo que ajuda a criar identidades mais claras, o que considero um acerto.

Os cenários são lindos até em combate.

Ainda assim, todos podem ser personalizados de forma significativa. Além de equipamentos, é possível gastar pontos de classe para desbloquear habilidades e slots passivos. Há também habilidades especiais encontradas pelo mundo, permitindo que personagens expandam suas funções além do óbvio. Mesmo com um elenco tão grande, o jogo consegue manter distinção mecânica e narrativa entre eles, algo que me surpreendeu positivamente.

Personagens, progressão e reconstrução da vila

Os personagens são recrutados por meio de quests próprias, que exploram suas motivações. Mais adiante, muitos ainda recebem missões extras que concluem seus arcos. Essas histórias são em grande parte desconectadas da trama principal, o que pode incomodar alguns jogadores, mas é um compromisso necessário para dar espaço a todos. É preciso aceitar a artificialidade de um grupo tão vasto, mas Octopath Traveler 0 administra isso bem, especialmente com os chats (pequenas cenas) que dão mais vida ao grupo.

Você pode convidar uma galera pra tua cidade.

Outro pilar importante do jogo é a reconstrução de Wishvale. Além da narrativa principal, erguer a vila novamente se torna um objetivo central que acompanha o jogador por dezenas de horas. Você coleta materiais, convida moradores de outras regiões e constrói diferentes instalações. Cada personagem alocado na vila oferece bônus específicos, como descontos em lojas ou melhorias em serviços.

No início, esse sistema pode parecer lento e até dispensável, mas com o tempo ele ganha significado. A progressão gradual reforça a sensação de esforço coletivo e, ao olhar para trás, o crescimento de Wishvale se torna genuinamente emocionante. Ainda assim, a limitação inicial de espaço e a demora para liberar opções mais criativas podem afastar quem espera personalização imediata.

Não esqueça de salvar!

Conforme a vila sobe de nível, novas construções, melhorias e opções estéticas são desbloqueadas. É possível até alterar o estilo arquitetônico com plantas obtidas em outras cidades. O problema é que esse nível de liberdade só aparece bem tarde na jornada, o que pode desanimar alguns jogadores.

As instalações da vila têm funções práticas importantes, desde produção de ingredientes até lojas com itens raros. Elas também podem ser aprimoradas com materiais obtidos de monstros de elite. Nas horas finais, o jogo libera fast travel completo, rastreamento de baús e inimigos especiais, além de áreas de treino para personagens inativos. Tudo isso cria um conjunto de conveniências que surge no ritmo certo, sem tirar o peso da exploração desde o começo.

Riqueza, fama e poder

Os temas centrais da narrativa também se refletem em sistemas mecânicos. Riqueza, fama e poder possuem valores numéricos que influenciam diversas interações. As ações com NPCs retornam, permitindo comprar itens, obter informações ou desafiar personagens. Diferente do primeiro jogo, todas essas ações ficam disponíveis o tempo todo, o que faz sentido dado o tamanho do grupo.

Recomendo nunca pular as falas pois a dublagem é de altíssimo nível.

O sucesso dessas interações depende dos seus níveis nesses três atributos, que são aumentados ao completar missões principais e secundárias. A progressão é bem ritmada e novos personagens costumam chegar acompanhados de avanços narrativos relevantes.

Tudo isso se conecta em um loop de gameplay extremamente satisfatório. Explorar, batalhar, recrutar, reconstruir a vila, evoluir personagens e descobrir novas áreas cria uma sensação constante de progresso. O jogo facilmente ultrapassa as 100 horas sem perder fôlego. Há até uma arena de monstros e viagens marítimas opcionais para ilhas com tesouros.

Comparação com o primeiro Octopath Traveler

O Octopath Traveler original apostava em uma estrutura mais fragmentada, com histórias individuais que se conectavam de forma sutil. Octopath Traveler 0 vai além. Mesmo sendo menos punitivo no fim do jogo, ele oferece sistemas mais integrados e uma narrativa de escala continental, sem abrir mão dos momentos íntimos entre personagens.

Quem não curte um jogo com class system?

Como prequel, o jogo também faz diversas referências ao futuro da série. Personagens do primeiro jogo aparecem de forma opcional e certas cenas ganham muito mais impacto para quem conhece o título original. Ainda assim, não é necessário ter jogado o primeiro Octopath para aproveitar tudo o que 0 oferece.

Tecnicalidades

Visualmente o jogo é um pouco mais fraco que o Octopath Traveler II, mas ao jogar dificilmente você irá perceber pois todas aquelas técnicas já características da franquia estão presentes como o efeito bokeh(profundidade de campo), as luzes exageradas nas batalhas, o capricho na pixel-art dos personagens, etc… Rodando no PS5 base temos uma performance perfeita e a trilha sonora composta por Yasunori Nishiki é uma coisa simplesmente absurda. Muitas faixas foram recicladas dos jogos anteriores, porém várias foram criadas para esse título como o tema de batalha padrão que se tornou a minha favorita de todos os tempos.

Sempre tem que ter um bardo nesses RPGs…

Sem esse tamanho capricho sonoro, todo o impacto de tudo que falei nessa análise seria bem reduzida e claro, a dublagem em inglês é perfeita, algo que tem sido padrao dos jogos da empresa nos últimos anos.

Veredito

Octopath Traveler 0 é muito mais do que um excelente RPG por turnos. Para alguém que não suporta jogos gacha, essa versão é quase um sonho realizado. Transformar essa história em uma experiência offline, premium e alinhada ao restante da franquia foi uma decisão brilhante. Este jogo estabelece um padrão claro de como narrativas originalmente pensadas para gacha deveriam ser preservadas.

Independentemente de sua origem, Octopath Traveler 0 é facilmente um dos melhores RPGs já feitos. Sua história, personagens, trilha sonora e sistemas interligados formam uma experiência de altíssimo nível, mesmo que demore algumas horas para engrenar de vez. A Square Enix segue refinando sua proposta HD-2D, e se o futuro for tão ambicioso quanto este jogo, há muito o que esperar.

David Signorelli

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