Denshattack! | Vale a pena?
Gente, eu preciso respirar fundo antes de escrever isso porque já vou avisando: essa review vai ser barulhenta. Se você cresceu curtindo Jet Set Radio pintando muro enquanto fugia de polícia patinando, se torceu igual doido em Tony Hawk’s American Wasteland tentando fechar aquele combo impossível, se ficava horas em Sonic Riders só pra sentir aquela sensação de velocidade insana, ou se simplesmente amava a bagunça criativa e sem noção que era o catálogo de PS2, senta que Denshattack! foi feito pensando exatamente em você. E olha, eu não tô exagerando (tá, talvez um pouquinho, mas é por uma boa causa).
Um Japão em ruínas nunca foi tão estiloso
A Undercoders pegou um conceito que parece maluco no papel, “e se a gente pegasse a mania de grind e trick do skate e colocasse dentro de um trem”, e transformou isso numa das experiências mais viciantes que joguei em muito tempo. O cenário é um Japão devastado, onde os ricos vivem protegidos dentro de cúpulas e o resto do povo se vira nos trilhos abandonados de um mundo em decadência. Parece pesado, e emocionalmente o jogo realmente entrega camadas sérias, mas o tom geral consegue equilibrar isso com um otimismo contagiante que te faz torcer o tempo inteiro pela Emi, a protagonista.

E cara, que personagem gostosa de acompanhar. Emi começa como simples entregadora de comida e vira mestre absoluta do Denshattacking, e ver essa evolução foi genuinamente emocionante. Ela tem esse jeito de fazer amizade rápido e correr de cabeça pro perigo que lembra muito aquelas protagonistas carismáticas de anime que a gente ama sem nem perceber por quê. Alguns personagens secundários acabam ficando um pouco mais na sombra, sem tanto desenvolvimento, mas isso não tira o brilho do elenco como um todo.
Bora falar de trilha sonora porque Meu Deus!
Ok, chegou a hora que eu mais queria chegar. A trilha sonora de Denshattack! não é apenas boa, ela é ridiculamente estacada de talento. O time principal é formado por Tee Lopes, Sean Bialo e Andrew One, e só isso já seria motivo suficiente pra comemorar, mas a lista de convidados é tão absurda que parece piada: Shoji Meguro (sim, o cara de Persona!), Richard Jacques (compositor de Jet Set Radio, o que fecha o círculo perfeitamente com toda a vibe do jogo), Takenobu Mitsuyoshi, lenda viva da era arcade da SEGA, Harumi Fujita, com currículo em Mega Man 3, Final Fight e Streets of Rage 4, além de nomes como Kohta Takahashi, 2 Mello, MIYACHI, Ironmouse, Lotus Juice e o grupo The DO DO DO’s.

Estamos falando de mais de 80 faixas e quase quatro horas de música original, lançadas pela Kid Katana Records em todas as plataformas de streaming, do Spotify ao Bandcamp. Tem faixa pra tudo quanto é clima: “Beppu Ramen Express” de Sean Bialo pra abrir o apetite (ou o boost), “There’s a Trick to It” e “Wanman ☆ Clash” de Tee Lopes puxando aquele breakbeat rápido que gruda na cabeça, “Coastline Funk” de Andrew One pra quem gosta de um funk mais groovy no meio da correria, e até uma faixa de chefe que mistura produção do Sean Bialo com a artista Vocaloid Yunosuke e a personalidade gyaru da Alice Peralta, criando um tema de boss battle que é praticamente uma pista de dança disfarçada de luta.

Cada zona do mapa tem sua própria identidade sonora amarrada à cultura japonesa que representa, então ir do Kyushu até as neves de Hokkaido é também uma viagem sonora completamente diferente a cada trecho. É o tipo de trilha que eu simplesmente deixo tocando fora do jogo, tipo tô escrevendo essa review com ela no fundo agora mesmo e olha, o texto está saindo mais rápido só de puro hype.
A jogabilidade que te faz virar mestre dos trilhos
A base é simples de pegar e satisfatória de dominar, exatamente a receita perfeita de plataforma que os anos 2000 sabiam fazer como ninguém. Você começa aprendendo a derrapar nas curvas pra ganhar velocidade e trocar de trilho pra não bater de frente com outro trem, e o jogo vai soltando mecânica atrás de mecânica no ritmo certo, sem nunca te afogar de informação.

As duas mecânicas que mais me deixaram de queixo caído foram o Yukaze, um vento verde que aparece quando você solta um truque e impulsiona o trem pra cima, abrindo caminhos novos ou te salvando de um obstáculo na última hora, e o Yayorozudo, que enche uma barra de truques até formar uma linha arco-íris no meio da fase, te levando pra áreas que normalmente seriam impossíveis de alcançar. A única mecânica que fiquei com pé atrás foi o drift multipista, um conceito legal no papel mas que na prática acabou servindo só pra abrir porta em algumas fases e acionar rampas específicas, bem menos empolgante perto do resto do arsenal.

O jogo é generoso demais e isso é ótimo: quando você bate, o trem só volta uns metros, sem punição pesada, então dá vontade de tentar de novo na hora sem aquela sensação de “ah não, vou perder tudo”. Isso faz toda a diferença pra manter aquele fluxo gostoso, tipo entrar num estado de flow onde você só quer mais uma fase, e mais uma, e mais uma.
Chefes, trens customizáveis e uma revista dentro do jogo
Cada zona termina com uma luta de chefe que testa tudo que você aprendeu até ali, e cada uma delas carrega uma personalidade e uma referência cultural japonesa que deixa o confronto ainda mais especial. O chefão final então, nossa, é de um nível de criatividade tão alto que fiquei besta olhando pra tela. Com o progresso, o jogo libera a compra de novos trens, cada um com habilidades próprias que mudam completamente como você encara as fases, desde permitir mais batidas sem prejudicar sua pontuação até facilitar a execução de certos truques. Testar cada trem pra achar o que combina com seu estilo é viciante por si só.

E tem os colecionáveis, claro: latas de spray, engrenagens pra desbloquear decalques e trens novos, mas o que eu mais amei coletar foram as fotos que alimentam a revista fictícia que o Fernando, primeiro amigo da Emi, vai montando ao longo da aventura. É uma forma inteligentíssima de contar mais sobre o mundo sem parar o ritmo do jogo pra te empurrar exposição, e eu simplesmente não resisto a esse tipo de detalhe.
Os únicos tropeços numa viagem sensacional
Preciso ser honesto: de vez em quando rolou uma leve engasgada quando a tela enche de coisa acontecendo, e olha que às vezes isso nem acontecia em momento de ação, tipo parado dentro da loja do jogo. Também tropecei em uns raros bugs de colisão, o trem atravessando parede ou caindo pro vazio do mapa, o suficiente pra me custar uma corrida sem batida em algumas ocasiões. E a customização, apesar de divertida com suas combinações de pintura e padrão, me deixou querendo poder escolher exatamente onde cada decalque vai parar no trem.
Só que, sério, são detalhes tão pequenos perto do tamanho da experiência que quase nem merecem estar no mesmo parágrafo que o resto dessa resenha.
VEREDITO
Quando os créditos finalmente rolaram eu tava com um sorriso bobo enorme no rosto. Denshattack! é sem dúvida um dos meus jogos favoritos do ano e uma das minhas experiências favoritas no Nintendo Switch 2, ponto final. É daqueles jogos que parecem ter sido feitos com um carinho absurdo por quem cresceu na mesma época que eu, então se você também tem saudade daquele caos genial de personagem estiloso, trilha sonora inesquecível e jogabilidade que te faz querer completar tudo, corre pra embarcar nesse trem o quanto antes.
Agradecimento: um muito obrigado, dos grandes, à Fireshine Games pelo código de review, foi uma alegria enorme poder viajar por esse Japão maluco e cheio de trilhos.
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